UM POETA
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Categoria hospedeira: Programação
CLAUSTRO MUSEU MUNICIPAL DE FARO | 21h45
Dia 10 SET
UM POETA / Un Poeta
Simón Mesa Soto, CO/DE/SE, 2025, 123’, M/14
sinopse, ficha técnica e trailer: aqui
imprensa
Um estudo cáustico de carácter que se tornou sátira social. - Indiewire
Uma comédia mordaz. - Le Monde
Uma fábula hilariante e absurda sobre tentar levar uma vida artística. - Variety
Uma ode aos que se perderem pelo caminho. - Les Inrocks
Simultaneamente trágico e hilariante (...). O segundo filme de Mesa Soto é conduzido por uma actuação de não-profissional, Ubeimar Rios, como um homem fora do seu tempo. - Screen Daily
Um odd mix que não deveria funcionar, mas que Soto resolve com mão segura e narrativa precisa. Que seja simultaneamente divertido e tocante torna-o uma conquista maior. - Variety
Com humor mordaz e um olhar profundamente humano, Simón Mesa Soto constrói uma reflexão singular sobre o fracasso, a criação artística e as desigualdades sociais. - cinema7arte
Sem sentimentalismos fáceis e, sobretudo, sem esmagar as personagens sob o peso de um qualquer “simbolismo” mais ou menos redentor, Mesa Soto é um cineasta que, realmente, acredita nas suas personagens. Que significa acreditar? Pois bem, deixá-las existir e evoluir sem rasurar as suas contradições, evitando encaixá-las em estereótipos para satisfazer a boa consciência do espectador. Neste contexto de abertura da “temporada de verão”, Um Poeta é um objecto não alinhado que merece ser descoberto. - João Lopes, dn
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Entrevista com Simón Mesa Soto
De onde vem esta história de um poeta falhado? O que querias explorar?
É o projecto mais pessoal que já fiz. Começou com uma pergunta íntima: e se eu falhasse na arte? Fazer filmes na Colômbia é incrivelmente difícil e depois da minha primeira longa-metragem considerei seriamente desistir. Imaginei-me aos cinquenta anos, a ganhar a vida como professor — que, aliás, ainda é como pago as contas — e a sobreviver de memórias idealizadas de uma vida passada na arte.Queria também explorar a arte a partir de dentro: o que significa criar, as limitações que impõe, os compromissos que exige. O filme surgiu de uma espécie de exaustão relativamente à maquinaria da arte e de um anseio por fazer algo livre, sem forma, com um espírito quase punk. Foi uma forma de me reencontrar com o que o cinema já significou para mim. Em vez de me retratar como cineasta, escolhi a figura de um poeta, porque ser poeta é, no mínimo, ainda mais utópico.
O filme interroga-se sobre o que é a arte e para que serve. E explora estas questões através da poesia, a forma de arte menos industrial que existe.
A arte é muitas vezes vista como algo nobre, mas é também uma indústria, mesmo quando independente. No cinema, por exemplo, existe um mercado que dita aquilo que o público espera ver: certos padrões repetem-se, sobretudo no cinema latino-americano. Como artista, tens de decidir se vais ao encontro dessa procura externa ou questionar-te o que realmente te motiva. Eu queria regressar a algo mais puro: uma forma de arte crua e visceral, menos mecânica. Foi aí que surgiu a poesia. Não foi uma escolha estratégica, mas sim intuitiva. Na minha cidade, Medellín, conheci muitos poetas que não se enquadram no molde idealizado. São inteligentes, punks, muito reais, e achei-os mais fascinantes do que a figura do cineasta. A poesia tem uma qualidade anacrónica — parece que ainda existe no passado, e esse aspecto ressoou em mim para esta história. Por exemplo, as leituras de poesia parecem quase intemporais, distantes da ideia de arte como algo utilitário ou comercializável. Dentro deste âmbito, existem contradições e um tipo de humor muito específico que eu queria explorar através da comédia negra.
A ligação entre Óscar e Yurlady é central no filme. O que contavas esplorar nessa relação professor/aluna? Há nela alguma forma de salvação mútua?
Sim, sem dúvida. A relação deles permitiu-me explorar vários dilemas que encontro ao fazer arte, especialmente num lugar como a Colômbia, onde as desigualdades sociais são tão acentuadas. A arte, e o cinema em particular, opera muitas vezes dentro de uma lógica onde o criador, a partir de uma posição mais privilegiada, transforma o “outro”, a personagem menos privilegiada, numa matéria-prima para a sua obra.
Isto levanta uma questão incómoda: como representar este “outro” sem o despojar da sua verdadeira essência? A relação entre Óscar e Yurlady ajudou-me a abordar isso, porque ela não é uma figura idealizada nem um grande prodígio literário; simplesmente escreve porque gosta, porque precisa. Por outro lado, ele está exausto, desiludido. Acredito que o encontro vem iluminá-los mutuamente: ela personifica uma forma de arte mais pura e livre, menos contaminada pelo mercado ou pela necessidade de validação. E isso obriga-o a confrontar o que perdeu.
Portanto, sim, há uma espécie de salvação mútua, mas não num sentido romântico, mais omo uma hipótese de reencontro com o que é verdadeiramente essencial.
UM POETA transita entre a comédia e o drama, a paródia e a tragédia, num equilíbrio muito delicado. Como conseguiste misturar estes tons?
Para ser sincero, não tinha uma fórmula clara. Confiei muito na intuição. Já durante o processo de escrita imaginei pequenas piadas e momentos cómicos subtis, confiando que funcionariam depois de filmados. Mas isso é algo que nunca se sabe ao certo até o filme chegar ao público, por isso ainda estou à espera para ver. Com este segundo filme, o meu principal objectivo era desfrutar do processo. Com o primeiro, estava extremamente stressado, cheio de ansiedade. Desta vez, procurei tornar a experiência agradável, até libertadora — como um exorcismo pessoal. A comédia ajudou-me com isso: permitiu-me brincar, rir de mim próprio, do que significa ser artista. E, ao mesmo tempo, utilizar a comédia como meio de abordar temas sérios. Espero que esta mistura funcione, porque para mim era essencial não criar um filme rígido, mas sim um que pudesse transitar livremente por diferentes registos.
Como encontraste o Ubeimar Ríos e o que te fez confiar-lhe o papel principal?
É tio de um amigo, e um dia o meu amigo disse-me: “Aqui tens o teu poeta”, e enviou-me o perfil dele. O Ubeimar é professor, vive numa cidade nos arredores de Medellín, escreve colunas para jornais locais, interessa-se por poesia e música e organiza eventos culturais. Tem uma forma única de falar e de se mover que me fascinou. Inicialmente, não o escolhi porque estava decidido a trabalhar com actores profissionais.
Em projectos anteriores, tinha trabalhado com actores não profissionais, e desta vez queria experimentar algo diferente. Mas fiquei a pensar no Ubeimar, e voltei a chamá-lo. Ele estava a recuperar de uma cirurgia, por isso fomos à quinta onde ele vive para fazer um casting, e foi óbvio: houve uma ligação imediata e intuitiva com a personagem. O que aconteceu a seguir foi belíssimo: Óscar, no argumento, era uma personagem menos simpática, mas o Ubeimar dotou-o de uma humanidade que não estava no guião. Durante as filmagens, todos se afeiçoaram a ele. Isso mudou tudo. A sua presença suavizou a personagem e, apesar dos seus defeitos, ela tornou-se mais cativante.
Porque foi importante filmar em 16mm?
Procurava uma estética que evocasse o passado, porque estes poetas são de certa forma de outra época. Por outro lado, o filme aborda certos dilemas dos homens de meia-idade, aquele período entre a juventude e a vida adulta em que já começamos a sentir-nos ultrapassados. Tenho 39 anos e também estou nessa fase, entre duas gerações. Por vezes, dou por mim a rejeitar o novo, outras vezes o velho. Fazia sentido que tudo tivesse uma textura ligeiramente antiquada. Filmar em 16mm ajudou a dar ao mundo do filme um aspecto meio anos 80, cru, áspero, um pouco como John Cassavetes. Não queríamos uma imagem limpa, brilhante e digital. Queríamos algo mais feio, mais imperfeito, acrescentando outra camada estética e emocional ao filme. E, claro, foi um prazer pessoal: filmar em 16mm é uma experiência muito especial para qualquer cineasta.
bilheteira: 2€ - sócios CCF | 4,5€ - estudantes | 6€ - restante público