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O ESTRANGEIRO

Categoria hospedeira: Programação
in Festa do Cinema ao Ar Livre

CLAUSTRO MUSEU MUNICIPAL DE FARO | 21h45

Dia 20 AGO
O ESTRANGEIRO / L'Étranger
François Ozon, FR/BE/MA, 2025, 120’, M/14

sinopse, ficha técnica e trailer: aqui

François Ozon soube fazer boas opções de realização, apoiado por actores que encarnam brilhantemente as personagens de O Estrangeiro. 
Uma magnífica viagem pela obra do meu pai, que ele respeitou na perfeição. Bravo, François, e obrigada. - Catherine Camus

imprensa

François Ozon oferece, com inteligência e sensibilidade, uma versão actualizada e mais política do romance de Albert Camus. Le Monde ★★★★

Um dos melhores filmes do realizador -  Público

O filme consegue ser fiel ao enigmático primeiro romance de Camus e audaz a nível narrativo, pelo que sugere e economiza, pelos silêncios de uma actuação superior de Benjamin Voisin na pele de Meursault. - Observador

Uma das obras mais ricas e gratificantes de Ozon em anos — uma adaptação literária raríssima, que honra um texto fundamental precisamente por encontrar algo de novo para dizer.” The Wrap

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ENTREVISTA COM O REALIZADOR

Como surgiu este projecto de adaptação do romance de Albert Camus?
Eu tinha escrito um guião original em três partes. Uma das histórias, com cerca de trinta minutos, retratava um jovem desiludido e isolado, um homem contemporâneo que não via sentido na vida. Iria ser interpretado pelo Benjamin Voisin. Mas o projecto não chegou a concretizar-se, e os meus amigos aconselharam-me a desenvolver a história para fazer uma longa-metragem. Para a desenvolver, reli O Estrangeiro, que só lera na adolescência. E foi uma revelação: o romance conservara toda a sua força e ressoava com temas que eu queria explorar — de uma forma mais inteligente e impactante!
Contactei a Éditions Gallimard, pensando que os direitos de adaptação cinematográfica já estavam obviamente reservados, mas, para minha grande surpresa, estavam disponíveis. Atirei-me então à adaptação, convicto de que o Benjamin seria perfeito para interpretar Meursault.

Em que estado de espírito é que alguém fica ao adaptar O Estrangeiro?
A ideia de adaptar um dos romances mais famosos da literatura mundial enche qualquer um de ansiedade e dúvidas! Até aí, eu só tinha adaptado obras menos conhecidas e menos aclamadas. Senti como um enorme desafio adaptar uma obra-prima que já todos leram, já amplamente visualizada e imaginada por todos os leitores.
Contudo, o meu interesse pelo livro prevaleceu sobre os meus receios e, portanto, embarquei no projecto com uma certa despreocupação.
Mas rapidamente me apercebi de que mergulhar em O Estrangeiro se revelou uma forma de me religar a uma parte esquecida da minha história pessoal. O meu avô materno foi juiz de instrução em Bône (actual Annaba), na Argélia, e sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1956, facto esse que precipitou o regresso da minha família à França continental. Ao trabalhar com documentos e arquivos e ao encontrar historiadores e testemunhas da época, percebi até que ponto todas as famílias francesas estão de alguma forma ligadas à Argélia e que ainda existe, muitas vezes, um silêncio pesado que paira sobre as nossas histórias.

O que esteve em jogo com este filme?
Pôr no ecrã a história de Meursault foi uma forma de tentar compreendê-lo, de escrutinar o seu mistério. Eu descubro os meus filmes à medida que os filmo. Nunca sei propriamente como ficarão no final. Sabia que o livro me tocara profundamente, o absurdo da vida que Camus descreve sem nunca ceder ao desespero. Este livro — e espero que este filme — interroga-nos.
É isso que espero do cinema.

E como é abordar uma adaptação depois de Visconti?
A personagem de Meursault influenciou toda a cultura contemporânea. É uma personagem mítica. E, claro, marcou e influenciou muitos cineastas que leram e se interessaram por O Estrangeiro. Vi, obviamente, o filme de Visconti, estreado em 1967.
Numa das suas entrevistas, ele partilhou que não conseguira fazer o filme que queria, que estava frustrado, que não estava satisfeito com o resultado e que a sua escolha inicial para Meursault não fora Mastroianni, mas sim Delon. E era uma ideia melhor. A encarnação ideal de Meursault nos anos 60 era, de facto, o jovem Delon de O SAMURAI, ou, melhor ainda, o de L’ECLIPSE, de Antonioni, que, na minha opinião, teria sido o realizador italiano ideal para adaptar O Estrangeiro.

Com efeito, um romance tão mítico e complexo é difícil de compreender. Como o abordou?
Sei que, pela sua própria natureza, qualquer adaptação envolve um elemento de traição, algo que devemos aceitar. Passa-se o mesmo com as traduções. A linguagem literária e a linguagem cinematográfica não são as mesmas. Segui o meu instinto, o que me cativou no romance, e apropriei me da visão de Camus. Achei que a “retranscrição” da primeira parte do livro (o funeral da mãe, o quotidiano e o assassinato do árabe na praia) devia ser sensorial, quase muda, física, com um ritmo lento e melancólico. Disseram me que a segunda parte (o julgamento e a prisão) seria mais fácil, mais “eficaz”, mas essa era a parte que mais me assustava. Porque no livro essa parte é um monólogo interior, um fluxo de consciência, enquanto a primeira parte é mais cinematográfica, com a descrição comportamentalista dos factos e das acções

Porque é que foi mais complicado?
Porque, de repente, através deste juízo e dos pensamentos de Meursault, entramos no domínio do discurso e da filosofia, mas um filme não pode tornar-se uma análise textual. Era necessário, pelo contrário, que a segunda parte enriquecesse a primeira, sem ser didáctica e mantendo-se muito corporal, física. Isto revelou-se um verdadeiro desafio de adaptação, enquanto a primeira parte é mais ou menos fiel ao romance, ainda que eu tenha tomado algumas liberdades.

Conheceu a Catherine Camus, filha de Albert Camus. Que papel teve ela nesta adaptação?
Foi importante conhecer a Catherine Camus, que zela pela obra do pai com amabilidade e firmeza. Foi muito emocionante ir a Lourmarin, ver o quarto de Camus, o seu escritório, a vista do terraço onde ele escrevia, e sentir o calor do Sul, que tanto lhe recordava a Argélia. Ela leu o guião, contou me coisas importantes sobre as circunstâncias que envolveram a escrita do livro, sobre certas inspirações, sobre pormenores biográficos, o que me ajudou a terminar o guião. Ela compreendeu a minha necessidade e a minha preocupação em contextualizar a história, para que o filme fosse acessível ao público contemporâneo e não fosse percebido como desligado da complexa realidade que conhecemos. Não se tratava de fazer uma adaptação literal, mas sim de trazer uma perspectiva contemporânea a esta importante obra do século XX, ao nosso passado colonial e à dor ainda muito presente entre a França e a Argélia.

 

bilheteira: 2€ - sócios CCF | 4,5€ - estudantes | 6€ - restante público  

 

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