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DOIS PROCURADORES

Categoria hospedeira: Programação
in Festa do Cinema ao Ar Livre

CLAUSTRO MUSEU MUNICIPAL DE FARO | 21h45

Dia 13 AGO
DOIS PROCURADORES / Zwei Staatsanwälte (Two Prosecutors)
Sergei Loznitsa,  FR/DE, 2025, 118’, M/12

sinopse, ficha técnica e trailer: aqui

imprensa

Filme notável centrado no percurso kafkiano de um jovem e idealista magistrado que ainda acredita na justeza da sua causa - Le Figaro ★★★★

Um retrato petrificante da insurreição estalinista… Este perturbador filme de Sergei Loznitsa desvenda uma parábola aterradora da perfídia burocrática - The Guardian ★★★★★

DOIS PROCURADORES é uma espécie de conto moral ou uma apologia em três actos com um alcance parabólico de grande actualidade. - Le Monde ★★★

Uma virtuosa fábula sobre o arbitrário. - Télérama

O terror estalinista visto pelo mais notável dos cineastas ucranianos.  - .Jorge Leitão Ramos, Expresso ★★★★

Dois Procuradores'. Memórias da crueldade estalinista. 
O ucraniano Sergei Loznitsa continua a analisar as convulsões da história do comunismo. Com o filme 'Dois Procuradores', faz o retrato dantesco do sistema de repressão na União Soviética de 1937. - João Lopes, dn

Positif ★★★★★
Cahiers du Cinéma ★★★★
L’Humanité ★★★★

__________

Uma conversa com Sergei Loznitsa

Como descobriu "Dois Procuradores", do autor Georgy Demidov, cientista e prisioneiro político da URSS? O que o inspirou nesta história relativamente desconhecida e não traduzida que começa com uma carta escrita com sangue?
Georgy Demidov, autor do romance "Dois Procuradores", foi preso em 1938 em Kharkiv, na Ucrânia, onde trabalhava como físico experimental no Instituto Técnico de Kharkiv. Passou catorze anos no Gulag, nos seus campos mais notórios, aos quais se referia como "Auschwitz sem fornos". Demidov escreveu sobre esta experiência nos seus livros. "Dois Procuradores" foi escrito em 1969. No entanto, na época, tais textos não só eram impossíveis de publicar, como até era perigoso lê-los em casa a familiares e amigos. Em Agosto de 1980, todos os manuscritos de Demidov foram apreendidos pelo KGB. Em 1988, a pedido da filha do escritor, os manuscritos foram devolvidos. O romance "Dois Procuradores" foi publicado pela primeira vez em 2009, pela editora Vozvrashenije. É uma história que esperou quarenta anos para ser publicada. 
Ao longo dos últimos trinta anos, reuni uma biblioteca bastante substancial de livros escritos por prisioneiros do Gulag, bem como dos campos nazis. Naturalmente, quando ouvi falar da publicação de "Dois Procuradores", fiquei fascinado. Li o romance e fiquei a pensar na história…
Uns anos depois, escrevi o guião. Num país onde dezenas de milhões foram deslocados ou passaram pelo Gulag, e dezenas de milhões pereceram nos campos, morreram de fome ou faleceram simplesmente devido às condições insuportáveis de existência, a memória destes acontecimentos trágicos permanece viva em quase todas as famílias. Essa memória ainda hoje nos assombra. 

Partindo do material original, o que pretendia alcançar com o filme, em termos de estrutura e tom: uma combinação de suspense contido e peça intimista baseada em diálogos, com um toque de ironia sombria? 
"Vais lá – mas não sabes onde é 'lá'. Encontra – mas não sabes o quê". Este é um enredo popular dos contos de fadas russos. O nosso herói, qual protagonista de um conto de fadas, está rodeado pelo desconhecido. Não se apercebe de que tipo de mundo está a viver. Faz o que considera lógico e justo, mas o mundo à sua volta não é nada como parece. O protagonista do nosso filme, o jovem procurador soviético Kornyev, avança praticamente às cegas.
A pergunta para a qual ele precisa de encontrar a resposta é: "Onde estou e o que está a acontecer-me?" O filme está dividido em duas partes, com um prólogo e um interlúdio entre os capítulos. Toda a primeira parte do filme é, na verdade, apenas o início da história de Kornyev. Só percebemos exactamente o que o herói precisa de fazer a meio do filme, passada uma hora. Embora tenha tentado seguir tão fielmente quanto possível o texto de Demidov ao escrever o argumento, também foi importante para mim inserir a narrativa num contexto filosófico e cultural mais amplo. Enquanto trabalhava no argumento, senti pairar persistentemente sobre mim e sobre a história as sombras de Gogol e Kafka.
Gogol, como poderão ter reparado, foi conscientemente "convidado" a entrar no filme como Capitão Kopeikin, mas Kafka apareceu e entrou sorrateiramente por conta própria - sem que tivesse sido convidado! "Dois Procuradores" é uma tragédia. Mas, como em qualquer verdadeira tragédia, há sempre um lugar para o grotesco e para a farsa. 

O filme transporta-nos para um momento específico da história soviética, o terror das grandes purgas de Estaline. O que teve em conta ao retratar este momento específico para o espectador de hoje? Sugere que um filme sobre os acontecimentos trágicos do terror estalinista dos anos 30 é relevante hoje? 
Infelizmente, estes temas continuarão a ser relevantes enquanto existirem regimes totalitários em qualquer parte do mundo. 
Nenhuma sociedade existente, por mais avançada e democrática que seja, é imune ao autoritarismo e à ditadura. Daí acreditar que ainda seja necessário continuar a estudar e a  reflectir sobre as grandes purgas dos anos 30.
Em 2017, realizei um documentário, O JULGAMENTO, baseado nas imagens de arquivo de um dos julgamentos-espectáculo de Estaline em 1930. Nesse julgamento, respeitados cientistas, engenheiros, economistas e magnatas da indústria soviéticos assumiram publicamente crimes que, como se veio a saber décadas mais tarde, nunca cometeram. Porque o fizeram? Esse julgamento tinha como objectivo provocar o medo e a suspeita na população soviética e tornou-se uma poderosa ferramenta de propaganda e terror estalinista. 
DOIS PROCURADORES também se passa durante as purgas de Estaline, quando todo o país está tomado pelo medo. Fascina-me este mecanismo psicológico – tanto na psique individual como na colectiva – que possibilita e sustenta a existência de uma sociedade totalitária, baseada inteiramente no terror. 
Estes padrões psicológicos repetem-se século após século, geração após geração. E, afinal, todos os regimes totalitários são, sob muitos aspectos, semelhantes. 

O paralelismo da história com o momento actual, muito para além da Rússia e do Putinismo,  é gritante. Espera que o público internacional se aperceba, em certa medida, de um reflexo das suas próprias sociedades?
Claro que podemos dizer que a história se repete. Os tempos mudam, as circunstâncias alteram-se e a tecnologia desenvolve-se, mas o resultado é sempre trágico. A tentação de alcançar objectivos políticos através dos meios simples e "eficazes" da violência pode revelar-se irresistível para as elites governantes, mesmo nos países mais democráticos e aparentemente incorruptíveis.
Sempre me intrigou o facto de, na maioria das vezes, pessoas – e por vezes os próprios países– não conseguirem compreender a sua própria história, não conseguirem distanciar-se para ver o todo e não compreenderem o significado dos acontecimentos históricos em que participam. Por outras palavras: não compreendem o significado dos acontecimentos que afectam directamente o seu destino. A cada vez dizemos para connosco: "Isto não pode estar a acontecer!". Mas a verdade é que está a acontecer, aqui e agora, e vemo-nos impotentes para resistir.

A impotência do indivíduo perante uma máquina estatal bem oleada é, infelizmente, um conceito que parece tão relevante em 1937 como hoje. O que mudou hoje?
Todas as sociedades contemporâneas e os seus membros individuais enfrentam uma infinidade de desafios. Estes desafios podem ser comuns a todos nós ou específicos de determinadas comunidades. Nessa medida, não devemos esquecer-nos de que existe uma certa "destemporalidade": vivemos todos no mesmo tempo físico e, ao mesmo tempo, em tempos históricos diferentes. Simultaneamente, há diferentes comunidades a passar por diferentes fases de desenvolvimento histórico. Mas há um problema que é comum a todos nós: a falta de uma linguagem adequada para descrever o que se passa aqui e agora. 
Se não conseguimos descrevê-lo, é impossível compreendê-lo. Sem compreender, é impossível tomar as medidas adequadas. Tentamos descrever o presente com uma linguagem do passado. Contudo, a experiência passada não serve para isto, porque a vida está sempre a mudar. Muda rapidamente. 
Vivemos há um século nas circunstâncias descritas por Kafka, Musil, Orwell, Platonov e outros grandes autores do século XX. Mas ainda parecemos aguardar pela chegada de um herói romântico, um salvador. Ele virá, lutará contra o dragão e resolverá o problema. Que inércia! Há exemplos suficientes disto na vida política de todo o mundo, nas aspirações das sociedades, nos critérios para escolher um "herói" ou campeão de uma cultura… 
Só que, infelizmente, temos um problema: os Robin Hoods são em absoluto uma coisa do passado. 
O mundo tornou-se tão complexo que não conseguimos lidar com os seus problemas utilizando métodos simples. Precisamos de uma linguagem diferente para descrever a nossa compreensão do mundo e, consequentemente, as nossas acções. Não digo que seja impossível encontrar essa linguagem, mas antes precisamos, pelo menos, de formular essa tarefa. Na verdade, é isso que tento fazer com o meu filme.

Os seus filmes parecem sempre lembrar-nos – ou gravar nas nossas almas – as lições da história. Como se mantém tão inspirado, emitindo avisos tão sombrios e premonitórios, ou lançando até alarmes?
Em tempos, as pessoas viviam em média 20 a 25 anos. Na primeira metade do século XIX, a esperança média de vida na Europa subiu para os 27 anos e no final do século XIX chegou aos 33 anos. No século XX, a mesma saltou para cerca de 65 anos. Afinal, há algumas mudanças positivas! Estas mudanças levam inevitavelmente a certas transformações na nossa consciência. É isso que me inspira.

 

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