As Guardiãs / Les Gardiennes

As Guardiãs

Xavier Beauvois, o realizador de “Dos Homens e dos Deuses”, foi desenterrar um livro de um autor esquecido, Ernest Pérochon, para rodar este belíssimo filme sobre as mulheres que, na Primeira Guerra Mundial, se encarregaram de tratar das culturas e das quintas, enquanto os homens estavam nas trincheiras. Interpretado por Nathalie Baye, Laura Smet (filha desta, e que também faz de sua filha na fita) e pela excelente estreante Iris Bry, “As Guardiãs” apresenta-se como uma crónica romanesca da vida quotidiana numa propriedade de uma França onde só ficaram as mulheres, os velhos e as crianças, e que Beauvois recria com um rigor de documentarista, desde as alfaias agrícolas ao ritual de se lerem os nomes dos mortos em combate na missa de domingo, passando pelo modo como se fazia o pão em casa. “As Guardiãs” emula o melhor do cinema clássico francês, é um elogio da força, do espírito de sacrifício e do estoicismo das mulheres, sem nunca se tornar vulgarmente panfletário, e o seu ritmo é o da vida campestre naquele sangrento e soturno início do século XX.

Eurico de Barros, Observador

 

Quando pensamos em filmes passados na I Guerra Mundial, pensamos sempre em histórias de soldados no campo de batalha. Em As Guardiãs, Xavier Beauvois (Dos Homens e dos Deuses) foi desenterrar o livro homónimo de um autor esquecido, Ernest Pérochon, para recordar as mulheres que, em França, ficaram na retaguarda com os velhos e as crianças, a cuidar de quintas, e de comércios e negócios. Nathalie Baye interpreta a matriarca da família Sandrail, que tem dois filhos e o genro nas trincheiras, e gere a sua grande propriedade com a filha (Laura Smet, sua filha na vida real) e uma rapariga órfã contratada (a estreante Iris Bry, uma revelação). Combinando o documental e o romanesco, As Guardiãs é uma fita de robusta personalidade clássica.

Eurico de Barros, timeout

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Uma história de mulheres

Nos tempos que correm, de uma certa consciencialização mediática das causas feministas, ainda há quem faça o pleno elogio à mulher sem cair no, muitas vezes, efémero discurso panfletário. Também serve para o cinema. Contam-se pelos dedos os filmes que contemplaram abertamente a resistência e mágoa daquelas que viram os seus homens partir para a guerra - um dos exemplos emblemáticos é a primeira película a cores de John Ford, Ouvem-se Tambores ao Longe (1939). Por isso saudemos o magnífico gesto de Xavier Beauvois, que chega agora às nossas salas: As Guardiãs. Saudemo-lo, desde logo, pela sua enorme cumplicidade com a história das mulheres. Particularmente as que, durante o primeiro conflito mundial, lavraram a terra e asseguraram a produção, enquanto os filhos e os maridos estavam no campo de batalha. O realizador desse admirável Dos Homens e dos Deuses traz-nos mais um sereno e impressivo olhar sobre aquilo que, dito de forma simples, une a humanidade: o amor, a morte e o trabalho. Este é um filme que nos põe diante de silhuetas femininas a laborar nas searas e terra de cultivo. Imagens que, além de evidenciarem a extrema força das mulheres, também se deixam atravessar pela angústia ancestral que lhes habita o corpo. Elas são o centro e abismo de uma visão seca e profundamente dramática da realidade. Os seus rostos símbolos de uma discreta honra que se manifesta nos muitos silêncios do filme. Aqui, a palavra serve quase só para expressar os sentimentos que, apesar de tudo, têm oportunidade de nascer, ou para anunciar uma morte... Beauvois filma tudo isto com um recatado louvor pictórico, que se torna eloquente na harmonia dos semblantes com a paisagem. Não poucas vezes, a beleza e a dor estão lado a lado. De ambas se faz o majestoso retrato de As Guardiãs.

Inês Lourenço, DN

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Os corações da França

A I Guerra vista a partir das mulheres que ficaram, que asseguraram a continuação da economia familiar.

Um estranho filme, a viver num desequilíbrio permanente em que o “conseguido” e o “falhado”, as ideias boas e as ideias que nem por isso, parecem coexistir de forma que se diria harmoniosa se isso não parece um paradoxo. Mas, também por causa disso, interessante, e sobretudo difícil de arrumar duma penada.

Vale a pena aproveitar os acasos da distribuição e aproximá-lo do Frantz de François Ozon. Porque ambos são evocações da I Guerra, numa perspectiva francesa, e porque, como o de Ozon (que se inspirava num filme de Lubitsch de 1931), também o de Beauvois vai buscar uma fonte cronologicamente próxima dos acontecimentos (um romance de Ernest Pérochon publicado em 1924).

É a I Guerra dada na “retaguarda”. Há algumas cenas nas trincheiras, mas no essencial está-se na quinta dominada pelas mulheres protagonistas visto que os homens da família vão desaparecendo para as fileiras do exército. Isto proporciona, em primeiro lugar, um olhar algo irónico sobre o bucolismo e as mitologias campestres, tão presentes na pintura francesa daquelas décadas, coisas que Beauvois, pela iluminação ou pelos enquadramentos, está sempre a evocar mesmo sem precisar de citações explícitas. Depois, o lugar das mulheres ali, as mulheres que ficam, as “guardiãs”, que tomam conta da quinta e dos seus afazeres, e que asseguram a continuação da economia familiar.

Asseguram ou tentam assegurar mais qualquer coisa, sobretudo a matriarca, Nathalie Baye: a perservação de uma moral social, e de uma moral sexual (a relação com as duas mulheres mais novas, a nora, Laura Smet, e a orfã que é acolhida na quinta, Iris Bry), algo mais complicado de garantir se, estando os filhos ou os maridos longe, se instala nas redondezas um regimento do exército americano. Apesar de ser um nó central da narrativa, esta questão acaba por ser esquemática e previsível. E o que é que fica, então, e tem uma força inesperada e irrecusável? As longas, longuíssimas, cenas, os longuíssimos planos, em que Beauvois mostra estas mulheres no trabalho e nas tarefas diárias, seja nos campos seja dentro de casa, duma forma que faz com que a acção nunca seja “indicativa” e se converta em tudo o que há para ver. É o esforço, o trabalho (e portanto uma certa violência), mas também é o ritual, a garantia de que as coisas se mantêm e continuam, um quotidiano “estruturante”. Esta ambivalência, que no fundo se replica na organização do filme e até na reacção que ele inspira, é algo a que é difícil dizer que não.

Luís Miguel Oliveira, Público