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O Fantasma da Liberdade

Categoria hospedeira: Programação
in Ciclo do mês

3 NOVEMBRO | 21H30 | IPDJ

O FANTASMA DA LIBERDADE
Luis Buñuel, França, 1974, 105’,  M/12

sinopse e ficha técnica: aqui


Este novo título, já presente numa frase de A Via Láctea (“a vossa liberdade não passa de um fantasma”), pretendia ser uma discreta homenagem a Karl Marx, àquele “espectro que percorre a Europa e se chama o comunismo”, no início do Manifesto.
A liberdade, que na primeira cena do filme é uma liberdade política e social (esta cena é baseada em acontecimento reais, o povo espanhol gritava de facto “Viva os grilhões” a favor do regresso dos Bourbons, por ódio às ideias liberais introduzidas por Napoleão), essa liberdade adquire rapidamente um novo sentido, a liberdade do artista e do criador, tão ilusória quanto a anterior.
O filme, muito ambicioso, difícil de escrever e de realizar, foi algo frustrante. Inevitavelmente, alguns episódios são melhores que outros. Mas não deixa de ser um dos filmes que fiz que prefiro. A sua dinâmica é interessante, gosto da cena de amor no quarto da estalagem entre a tia e o sobrinho, também gosto da busca da rapariga que se perdeu (uma ideia que tinha há muito tempo), a visita dos dois comandantes da polícia ao cemitério, uma longínqua recordação do Sacramental de San Martín, e o final no jardim zoológico, aquele olhar insistente da avestruz que parece ter pestanas falsas.
Hoje, quando penso nisto, creio que A Via Láctea, O Charme Discreto da Burguesia e O Fantasma da Liberdade, todos nascidos de um argumento original, forma uma espécie de trilogia, ou melhor, de tríptico, como na Idade Média. Encontram-se nos três filmes os mesmos temas, por vezes até as mesmas frases. Falam da procura da verdade, da qual há que fugir assim que pensamos tê-la encontrado, do implacável ritual social. Falam da indispensável busca, do acaso, da moral pessoal, do mistério que há que respeitar.
A título de pormenor, indico que os quatro espanhóis que fuzilam os franceses no princípio do filme são José Luis Barros (o mais alto), Serge Silberman (com uma faixa sobre a testa), José Bergamín em pessoa, de padre, e eu próprio, escondido debaixo da barba e da sotaina de um frade.
Luis Buñuel, O Meu Último Suspiro, Ed. Fenda, Lisboa, 2006

Produzido em França, é um dos títulos finais da filmografia do realizador espanhol Luis Buñuel — um exercício de sofisticado humor em que a observação social se cruza com o mundo dos sonhos.
“O Fantasma da Liberdade” é também um prodigioso objecto de cinema, igualmente apostado em observar, com contundente humor, as relações entre classes e o misto de ilusão e hipocrisia que sustenta o seu equilíbrio instável.
“O Fantasma da Liberdade” evolui, assim, como um verdadeiro puzzle, insólito e divertido, em que nem sempre é evidente de que modo as peças encaixam. Para Buñuel, obviamente devedor do prazer de experimentação do período surrealista — recordemos o exemplo emblemático de “Um Cão Andaluz” (1929), filme de estreia em que contou com a colaboração de Salvador Dali —, não se trata de contar uma história linear, mas sim de elaborar uma arquitectura de cenas em que a ironia dos mais sugestivos detalhes sociais se cruza com as atribulações mais ou menos bizarras do mundo dos sonhos.
Produzido também em França, tal como toda a fase final da filmografia de Buñuel, “O Fantasma da Liberdade” conta com um elenco excepcional que integra, por exemplo, Jean-Claude Brialy, Monica Vitti, Michael Lonsdale, Adriana Asti e Michel Piccoli [video: cena onírica com Brialy e Vitti]. Sem esquecer que este é também um dos exemplos mais sofisticados da sua colaboração com Jean-Claude Carrière — afinal de contas, desde “Diário de uma Criada de Quarto” (1964), Carrière foi o principal argumentista da obra de Buñuel.
João Lopes,sicnoticias.pt/

No terceiro volume deste tríptico, O Fantasma da Liberdade, os dois cúmplices Buñuel e Carrière vão ainda mais longe na exoneração das supostas regras de escrita de um filme, e arriscam um argumento que faz lembrar a técnica do “cadáver esquisito” dos surrealistas. Tudo se passa como se cada nova sequência partisse de um personagem cruzado no fim da anterior, ignorando o que o precedeu no filme. A um nível emocional mais profundo, obviamente não é nada disso: uma composição mais musical, subterrânea, secreta, substitui-se à continuidade dramática e ao regresso dos mesmos personagens do argumento clássico. Algumas cenas assumem um relevo particular, onde sentimos menos “cerebralidade” e um investimento emocional mais intenso de Buñuel. A cena do jovem rapaz que fugiu com a tia, que se exibe nua e acaba por se lhe entregar no albergue no campo. Ou aquela do prefeito da polícia que se lembra de um dia de calor em que a sua irmã, também ela nua no quarto, tocou piano para ele, causando-lhe uma enorme perturbação sexual com a visão das suas coxas afastadas por baixo do piano, que combina com o plano de Francisco sob a mesa de El. Ou ainda a cena do homem que dispara ao acaso sobre os peões do cimo da torre de Montparnasse, concretizando o gesto surrealista de sair à rua e disparar ao acaso sobre a multidão.
Alain Bergala, Luis Buñuel, Ed. Cahiers du Cinéma, Collection Grands Cinéastes, Paris, 2007

Jean-Claude Carrière entrevistado por Benoît Gautier, L’Express, 13 de Julho 2011 [excerto]
O Fantasma da Liberdade é composto como um cadáver esquisito...
Jean-Claude Carrière — Este filme coloca mesmo em questão a própria noção de história. A dificuldade era conseguir escrever uma sucessão de intrigas interrompidas antes da sua conclusão — dito de outra forma, uma série de decepções — mas sem que esse tratamento fosse alguma vez entediante. Buñuel era muito púdico e não falava muito sobre a sua obra, mas eu sei que ele adorava particularmente duas ou três cenas do Fantasma da Liberdade. Sobretudo a sequência da menina perdida e reencontrada…

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