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Vieirarpad

Categoria hospedeira: Programação
in Ciclo do mês

5ªF | 16 JUN | IPDJ | 21H30

VIEIRARPAD
João Mário Grilo, Portugal, 2021, 86’, M/12

sinopse, ficha técnica e trailer: aqui

Texto descritivo do filme
Este filme centra-se na correspondência trocada pelo casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szènes, entre 1932 e 1961. No contexto do filme, que adota um registo documental, as cartas e a intimidade das suas palavras são o pretexto para a exploração e restituição de uma visualidade íntima, mas poderosa, onde a memória do século XX – e os muito exílios e isolamentos que provocou -, se articula com a obra plástica de Vieira e Arpad, com elementos iconográficos das suas próprias vidas e documentos audiovisuais de época documentando a vida em vários locais do mundo, olhada e comentada pelos dois artistas, para além de várias entrevistas relevantes. 
Com filmagens em Lisboa, Paris, Lyon, Dijón, Yèvre-le-Châtel e Rio de Janeiro, VIEIRARPAD compõe uma trança audiovisual em que memória, poesia e intimidade procuraram resgatar, na proximidade das imagens, dos sons e da montagem, as paisagens íntimas que a violência do século foi episodicamente dilacerando. A narração é feita em flashback: o filme tem início no cemitério de Yèvre-le-Châtel, junto à sepultura comum de Vieira e Arpad, que entram no filme como seres de outro mundo, convidando-nos a seguir a sua história, as geografias reais e imaginárias que cruzaram, o seu amor mútuo e a sua paixão partilhada pela arte. Memorial e monumento, o filme pensa-se como operação de restauro sobre o tempo e a história, em que o desejo e o amor foram os motores de resistência alimentados pelo combustível de uma união indefetível. Que, por isso, se há-de aqui melhor entender e celebrar, e também nas suas repercussões artísticas e políticas. Pelo cinema e as suas articulações se propõe cumprir assim o último destino desta correspondência de valor excecional, que é também uma ode a uma felicidade simples e admirável.

nota de intenções da realização
A “coisa” deste VIEIRARPAD já se vislumbrava, em boa verdade, em “Ma Femme Chamada Bicho”, belíssimo filme que José Álvaro de Morais realizou entre 1976 e 1978. Só que, filmado em vida do par Maria Helena Vieira da Silva / Arpad Szenes esse filme faz parte, ainda, e plenamente, do dispositivo pelo qual o casal construiu a sua vida e o seu amor, enquanto componentes essenciais da sua própria obra, abrindo-a, assim, a um campo performativo que, pela disparidade dos materiais, só o cinema e a montagem poderiam verdadeiramente resgatar.
Ora, é neste contexto “performativo” que a publicação da correspondência entre os dois esposos – trocada nos breves períodos em que foram forçados a viver longe um do outro -, bem como a iconografia do casal, que se deixou abundantemente fotografar ao longo de toda a vida – até numa fotonovela! -, para além, evidentemente, dos muitos desenhos e pinturas “biográficas” que, entre ambos, produziram, vem dar luz a essa cena amorosa enquanto verdadeiro ponto de encontro e fusão entre as obras de ambos, numa mise en scène recíproca e interminável.
Assim, para o projecto inicial de VIEIRARPAD, estes materiais sobreviveram ao tempo para desempenhar uma missão: a de tornar visível a particularidade de uma vida em comum  totalmente significativa e que se procurou que tomasse no filme a forma de um último legado do casal.
Uma última obra, então, mas que é, ao mesmo tempo, a mais primeira e a mais radical de todas as obras: a construção de uma (duas vidas), na forma de uma obra de arte. Para mim, tudo estava ali (o filme), portanto, à espera de ser filmado e montado! E o cinema, arte dos fantasmas, por excelência, foi para mim, ao mesmo tempo, a linguagem e a esperança para esta derradeira revelação humana e artística. Procurando perpetuar esta tão feliz frugalidade em algo realmente exemplar.

outras leituras

A pintura é muito tempo. João Lopes, dn
“Vieirarpad”: frescura e picante. à pala de walsh
Vieirarpad: O Contracampo do Fogo. c7nema.net
Elogio da pintura e dos seus bichos. João Lopes, dn
entrevista ao realizador
. Paulo Portugal, insider

 

 

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