CARTAS AMARELAS
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Categoria hospedeira: Programação
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in Ciclo do mês
26 NOV | IPDJ | 21h30
CARTAS AMARELAS
İlker Çatak, FR/DE/TR, 2026, 128’, M/12
sinopse, ficha técnica e trailer: aqui
notas críticas
Um drama político emocionante e surpreendente. - Variety
Um drama familiar bem observado e interpretado. - Time Out
Um filme que é ao mesmo tempo um drama conjugal emocionante e um grito de guerra contra a censura artística... Ancorado por duas interpretações brilhantes. - Indiewire
Ilker Çatak reconstrói a Turquia para dissecar as facetas ambivalentes da arte e da vida, da opressão política, da educação e das relações entre um casal. - Cineuropa
Uma poderosa epopeia humana, passada num mundo sufocado pela repressão das vozes libertárias, e uma declaração política que não abdica da sua elegância cinematográfica. - Bande à Part
O novo filme do realizador alemão de origem turca explora, com uma narrativa profundamente universal, a explosão de um casamento perante um regime sufocante. - Libération
Ilker Çatak traz-nos um drama conjugal combinado com um thriller com uma mensagem política eminentemente universal. - Les Inrockuptibles
UMA CONVERSA COM ILKER ÇATAK
Como surgiu a ideia de fazer CARTAS AMARELAS?
A ideia ocorreu-me em 2019, quando estava em Istambul para um filme anterior. As pessoas do meio artístico falaram-me das cartas de despedimento que receberam e de alguns dos motivos absurdos apresentados. Num caso, alguém fumara no camarim de um teatro, o que desencadeara um processo disciplinar. Entre 2016 e 2019, cerca de 2000 artistas foram suspensos e julgados por terem assinado uma petição pela paz. Isto reflectiu uma série de purgas generalizadas no meio académico e cultural. Estas começaram depois de o governo ter reagido à petição e intensificaram-se após a tentativa de golpe de estado no Verão de 2016. Foram impostas proibições profissionais, os processos judiciais foram atrasados, as pessoas foram forçadas a esperar e desgastaram-se simplesmente pela espera. Para mim, foi crucial não só denunciar "o Estado", mas olhar para tudo na perspectiva de um casamento que começa por estar intacto. Como lidar com um regime que nos impede de fazer o nosso trabalho da forma que acreditamos que deve ser feito e de expressar as nossas opiniões da forma que desejamos? Como viver num sistema que nos condena a uma espécie de morte civil, excluindo-nos da vida social, deixando-nos fisicamente vivos, mas apagados legal, social e profissionalmente? Quis contar uma história sobre estas questões no contexto da dinâmica familiar, porque acredito que ela diz respeito a todos nós. E penso que estas questões virão a tornar-se ainda mais urgentes nos próximos anos, quer vivamos na Turquia, na União Europeia ou nos Estados Unidos.
Como se desenrolou o guião, a partir dessa ideia?
Em 2021, eu e a Ayda, a minha mulher, começámos a pesquisar juntos. Lemos muito sobre as purgas, mas também mergulhámos na literatura. Existe um livro, "The Turkishness Contract" de Barıs Ünlü que descreve os mecanismos, as atitudes que se espera que as pessoas apresentem para progredirem na sociedade. Espera-se que sejamos patriotas, mas também crentes. Mostra muito claramente como esta pressão para desempenhar um determinado papel já se verificava durante a queda do Império Otomano e a fundação da República Turca, e como esta divisão da sociedade foi gradualmente estrei-tando o limite do que os cidadãos podiam dizer e ser publicamente.
Achei isto fascinante no que toca a histórias de artistas que, depois de terem sido despedidos, foram subitamente forçados a encarnar um papel diferente, não no palco, mas na vida pública. Representar a conformidade: ir à mesquita, integrar-se na comunidade, participar na quebra do jejum, apagar as pu-blicações nas redes sociais… Actualmente, temos uma versão impressionante disto nos EUA, onde as empresas tecnológicas se alinham com Donald Trump e mudam diametralmente os seus objectivos. São performances, um espectáculo a que também se pode assistir na Alemanha. Num mundo movido pelo dinheiro e pelo poder político, pode parecer quase romântico, até ingénuo, falar de ideais em vez de ser simplesmente oportunista. Somos praticamente ridicularizados por perguntar o que aconteceu aos direitos humanos, talvez a maior conquista do século XX, quando nos deparamos com o seu des-mantelamento. Estes foram os pensamentos que eu e a Ayda levámos para a escrita.
Quando decidiu filmar na Alemanha e não na Turquia?
Escrevi o primeiro esboço do guião sozinho, mas tinha dúvidas. Senti que o filme devia ser feito por um realizador turco, alguém como Emin Alper, por exemplo, que assinou a petição pela paz e foi levado a julgamento. Como vivo na Alemanha e escapei a esta injustiça, por vezes sentia-me como uma turista na minha própria história. Partilhei isso com o meu produtor turco, Enis Köstepen, um pensador muito esclarecido e progressista que também trabalha em Istambul, como activista dos direitos humanos em várias ONG. Ele teve então a ideia de também enviar o filme para o exílio: filmá-lo na Alemanha. Não estaríamos a recriar a Turquia. Em vez disso, procuraríamos locais na Alemanha, onde já existe uma grande diáspora, onde a “Turquia” se pudesse passar. Entretanto, a realidade "apanhou" o filme.
Trump intensificou a sua campanha contra as universidades, e o debate Israel-Palestina mostrou como, mesmo aqui, os artistas e os académicos precisam de ter cuidado com o que dizem. De repente, CARTAS AMARELAS deixou de ser uma história que só acontece "lá". E de repente, fez todo o sentido criar esta encenação: filmar aqui e estabelecer a premissa de que estamos na Turquia.
Era óbvio que queria ter um elenco turco, a falar em turco?
Sim, revelou-se muito rapidamente óbvio. Talvez tenha sido um pouco rebelde, no sentido de: porque não? O cinema é sempre uma janela para o mundo. Adoro línguas, tanto o alemão como o turco. Então, porque não fazer um filme totalmente em turco? A coragem que os actores revelaram ao abraçar um projecto como este tocou-me profundamente, e o meu sentido de responsabilidade para com eles in-tensificouse ainda mais. Temos cerca de 70 personagens com falas, além dos que já viviam na Alema-nha, alguns actores vieram da Turquia, outros de França, da Áustria e da Suíça. Achei particularmente significativo dar um palco aos actores turcos que vivem na Europa: proporcionar-lhes a oportunidade de representar na sua própria língua e de construir uma ponte entre dois países.
Que efeito espera que o filme venha a ter?
Espero que desencadeie uma reflexão sobre a forma como nós, enquanto membros de sociedades que gozam de liberdade de expressão e de liberdade artística nas democracias liberais, nos comportaríamos se estas acabassem abruptamente. Como indivíduos, como pais, como cidadãos. Quero que as pessoas se questionem sobre o que fariam na situação de Derya e Aziz e que, ao fazêlo, olhem para lá dos seus próprios horizontes, reconheçam o problema como um fenómeno global e reflictam sobre ele.