FOGO DO VENTO
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Categoria hospedeira: Programação
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in Ciclo do mês
DIA 11 JUN | IPDJ | 21h30
FOGO DO VENTO,
Marta Mateus, FR/PT/CH, 2024, 72’, M/14
sinopse, ficha técnica e trailer: aqui
nota de intenções
"Fogo do Vento" é a continuação de um exercício de arqueologia sobre as memórias das gentes do Alentejo, do trabalho iniciado na curta metragem "Farpões Baldios", procurando reflectir sobre o tempo presente: a História marcada na paisagem e no nosso corpo, nos gestos e nos afectos, no inconsciente colectivo. Que transformações sofremos enquanto comunidade, o que nos diferencia e nos une? O que queremos semear para colher, que frutos vão brotar deste terreno fértil?
Um dia, no Verão de 2017, apareceu-me um touro negro no pensamento. Dias depois, chegou-me a imagem de um incêndio, de terra queimada. Aprendi a dar atenção aos signos, aos sonhos, às visões, a guardar os mais leves prenúncios presentes numa ideia, num sopro de vento. Essas são as imagens inaugurais a partir das quais fui tecendo uma trama que cruza as vivências das pessoas da minha comunidade no Alentejo, as imagens das nossas memórias e as que a imaginação inventa.
Ao longo de sete anos fui mergulhando nesta fonte, descendo às cavernas mais escuras, sem nunca perder de vista a luz. Por muitos e diferentes motivos, a preparação do filme foi demorada. Rapidamente percebi que esta subida às árvores nos oferecia um lugar de suspensão entre o céu e a terra, que entrávamos noutro espaço-tempo. Queríamos ficar lá em cima para entrar na grande noite onírica, como num ritual, e trazer à claridade os nossos fantasmas.
Era também um modo de fazer contas com o passado. A rodagem iniciou-se no Verão de 2021. Estávamos a sair, lentamente, da pandemia do Covid-19. Tínhamos atravessado um momento estranhamente disruptivo, avassalador. Não éramos os mesmos.
Escreveu Robert Bresson em "Notes sur le cinématographe":
"Dans tout art, il existe un principe diabolique qui agit contre lui et tâche de le démolir. Un principe analogue n'est peut-être pas tout à défavorable au cinématographe".
Era vital trabalhar na obra as coisas da vida, do nosso mundo, abrir a roda, acolher cada um e também separar as águas, o trigo do joio. Partilhámos as dores e os amores, histórias de guerra e paz. Chamámos os nossos mortos para nos ajudarem a domar as feras e libertar as forças do passado, a olhar as nossas raízes e a germinar novos rebentos.
Em toda a arte há um princípio diabólico que actua contra ela e se esforça por a demolir. Um princípio análogo talvez não seja totalmente desfavorável ao cinematógrafo.
Caímos, chorámos, aprendemos muito, reinventámo-nos.
Surgiu então um novo filme, cujo argumento foi sendo aprofundado e desenvolvido ao longo de quatro anos de rodagem. No primeiro ano ainda seguindo o argumento e com uma pequena equipa; nos restantes peguei na câmara e nos reflectores e, como uma aprendiz de pintura carrega o seu cavalete, na companhia geralmente de uma pessoa além dos protagonistas, família ou amigos, fui construindo o argumento enquanto filmava.
A vida é amiga da arte, diz outro poeta. A função mais profundamente cultural e social da arte é mágica, tem força de exorcismo. A sua expressão oculta e essencial actua na obra e na vida. Gosto de imaginar que o cinema tem o dom da feitiçaria.
Neste filme estão reunidas muitas pessoas de diferentes origens e contextos sócio-culturais, sobretudo membros da comunidade de Estremoz e arredores que nunca convivem. Formamosuma família alargada. Especialmente importante para mim foi o extraordinário trabalho com as pessoas de etnia cigana, habitantes do Bairro das Quintinhas, que protagonizam este filme.
O Nelson nunca cantou tão bem, dizia o Zé Moura. O Nelson sempre terá cantado, só não terá sido ouvido como o ouvimos em "Fogo do Vento", acrescento eu. O Nelson, a Lídia, a Soraia, a Maria Catarina, nós, a árvore, o fruto, o pássaro, a pedra na terra barrenta: somos todos membros da mesma comunidade. E sobre as nossas cabeças, os astros que iluminam o dia e a noite. São a nossa principal fonte de energia — e a única fonte de iluminação no filme. Guiam-nos, lembram-nos da gravidade, fazem-nos levantar, olhar para cima.
O maravilhoso conjunto de sobreiros onde filmámos tornou-se o nosso atelier. Fomos conhecendo os movimentos do sol em cada árvore. A nossa "noite americana" (ou alentejana) está muito próxima da luminosidade das noites de lua cheia. Foi assim que aprendi a vê-la, no interior dos montes mais afastados, na minha infância sem luz eléctrica. Enfrentámos de frente um touro enfurecido. Nessa perigosa afronta da força animal, é também a natureza que nos alimenta, que nos liga e ampara. Salva-nos (sempre) o colectivo.
Enfrentámos a memória e a ferida da guerra. A guerra que está inscrita nos nossos genes, no nosso quotidiano e que é preciso sanar. Invocámos os milhares de homens que foram levados a combater nas antigas colónias, como os irmãos de Maria Catarina, e que aqui aparecem ao lado do meu avô João da Encarnação, que nunca conheci porque morreu muito novo, e de quem pouco sei, além de que perdeu um olho na Primeira Guerra Mundial. Em "Fogo do Vento", é interpretado pelo meu filho, Safir Eizner.
As imagens criam linguagens e emitem vibrações. Por isso o cinema é tamanha responsabilidade. Aprendemos com Godard que a linguagem da guerra cria linguagem de guerra. As suas repercussões só podem ser resolvidas a partir do passado, desconstruindo o nosso imaginário, com a invenção de outras linguagens, narrativas e formas de contar.
Será, assim, através da linguagem dos afectos, do coração generoso e sábio de Maria Catarina, que lançamos as armas à água que lava e corre, que partilhamos o pão que alimenta gerações, que celebramos a vida com o suco da vinha.
Marta Mateus
notas críticas
Inspirado nas memórias e vivências do Alentejo, território onde a realizadora cresceu, o filme constrói um retrato íntimo e coletivo de uma comunidade marcada pelo trabalho, pela oralidade, pela partilha e por muitas lutas. O elenco é composto maioritariamente por atores não profissionais do concelho de Estremoz — entre estes, trabalhadores rurais, membros da comunidade cigana e familiares da própria cineasta —, que partilham de viva voz as suas histórias e experiências, sendo que muitos deles já haviam participado na curta-metragem Farpões Baldios.
O ponto de partida da narrativa é uma jornada de vindima interrompida por um acidente: uma jovem corta-se e o seu sangue mistura-se com o vinho. Ameaçados por um touro negro, os trabalhadores refugiam-se nas copas dos sobreiros. Nesse lugar suspenso, entre a ameaça e a espera, emergem histórias de guerra e de paz, de violência e afeto, memórias individuais e das lutas coletivas que atravessam vários tempos históricos, desde a Primeira Guerra Mundial, a ditadura, a guerra colonial, chegando aos dias de hoje. - comunidadeculturaearte.com
.. uma obra cheia de pensamento mágico e precisa no seu alcance antropológico. Variety
O júri do Festival Caminhos do Cinema Português atribuiu a Marta Mateus o Prémio de Melhor Realização, descrevendo o filme como «uma cantata agreste onde o sol e a lua atiçam o fogo do vento» e reconhecendo nele «a voz única de uma realizadora».