A Mais Preciosa Mercadoria
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Categoria hospedeira: Programação
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in Ciclo do mês
DIA 26 MAR | IPDJ | 21H30
A MAIS PRECIOSA MERCADORIA
Michel Hazanavicius, FR, 2024, 81’, M/12
ficha técnica, sinopse e trailer: aqui
No coração sombrio da Segunda Guerra Mundial, um gesto de humanidade muda tudo.
Baseado no livro epónimo de Jean-Claude Grumberg, A Mais Preciosa Mercadoria é a primeira animação de Michel Hazanavicius, realizador vencedor do Óscar pelo filme «O Artista» (2011), que regressa com um conto delicado e devastador sobre a compaixão em tempos de horror.
“Tenho muito orgulho em ter feito um filme que carrega uma voz humanista, serena e pacífica.
Sinto-me bem posicionado para fazer um filme como este. O mundo traz-nos diariamente uma dose de preocupação, até de angústia, e acredito que temos todos de zelar para não perdermos a nossa humanidade. Este não é um filme que procura causar medo. Contrariamente, pretende maravilhar e emocionar com a beleza.
O verdadeiro tema de La Plus précieuse des marchandises é o amor e os seus principais protagonistas são os Justos. Este filme conta como se formou uma cadeia de solidariedade para salvar uma menina. Não é um filme sobre massacres, guerra, morte, é um filme animado pelas forças da vida, o que ainda pode nos dar razões para ter esperança.” - Michel Hazanavicius
a crítica
Com um traço de animação simples, mas rude e cru, ele [Hazanavicius] consagra o que de melhor pode transparecer na desgraça e na tragédia. O amor. O amor de cuidar do próximo e o legado de coisas que não se aprendem, mas que se herdam. — Sara Afonso, Revista Metropolis
É um filme que escolhe a vida, é sobre uma cadeia de solidariedade para salvar a vida de uma menina... Uma história de escolha humana." Michel Hazanavicius em entrevista para a Antena1
Soberbo e comovente.- Le Parisien ★★★★★
De uma prodigiosa beleza e delicadeza. - France Inter
Uma obra-prima profundamente autêntica. - Télérama ★★★★★
Um filme cheio de humanidade. - Ouest-France ★★★★★
entrevista com o realizador
Declarou frequentemente que não queria fazer um filme sobre a Shoah ou em torno da Shoah. Quais eram as suas razões? E porque acabou por se decidir a fazê-lo, ao adaptar o conto de Jean-Claude Grumberg, La plus Précieuse des Marchandises?
Foi a história. A história que o Jean-Claude Grumberg imaginou desfez todas as minhas certezas sobre o tema. É uma narrativa profunda, poderosa, humanista, e ao mesmo tempo delicada emodesta, que logo senti ser, instantaneamente, um clássico, mal a descobri, ainda antes de sua publicação. Para mim, enquanto realizador, isso é, sem dúvida, o mais desafiador: encontrar uma história que realmente valha a pena. Podemos sempre encontrar boas cenas, bons actores, boas situações e bons momentos de cinema, mas quando nos deparamos com uma verdadeira boa história, não devemos deixá-la escapar. Basicamente, foi isso que aconteceu. Encarei a proposta de Patrick Sobelman e Studiocanal como um presente.
Então não teve qualquer hesitação?
Sim, na verdade, tive muitas. Representar a deportação, os campos de concentração, fazer animação, embarcar numa aventura tão longa como realizador de animação – uma profissão que eu ainda não conhecia – tudo isso foi um empreendimento impressionante.
Mas depois, ao conversar com a Bérénice Bejo, especialmente sobre os nossos filhos, mas também ao imaginar o filme que poderia vir a fazer, e depois de falar com o Jean-Claude, tornou-se impossível para mim recusar uma proposta como essa. Além disso, o projecto tocava em questões muito pessoais: a minha própria história, a minha relação com o desenho – uma arte que pratico desde os dez anos, de forma amadora – e também o facto de o Jean-Claude ser o melhor amigo dos meus pais desde os 16 anos. Conheço-o desde que nasci, conheço a sua sensibilidade, os seus traumas, o seu sentido de humor… Ouvi-o rir tantas vezes quanto o ouvi indignar-se, desde que comecei a perceber francês, o que me faz sentir alguma legitimidade para contar a sua história sob a forma de um filme.
Pensou naquilo a que se chama “dever de memória”?
Não, não é isso que me interessa. Não sou professor, não me sinto em missão, sou realizador de filmes, trabalho na área do entretenimento e estou muito bem no meu lugar. Discuti isso com o Grumberg, que me disse que essa também não era a ideia dele, que ele só queria mostrar que podem existir coisas belas no meio daquela história horrível. Foi isso que me guiou, porque foi exactamente isso que me emocionou quando li o livro dele. La Plus précieuse des marchandises não é uma história sobre o horror ou sobre os campos, ela vai para além disso. É um movimento das trevas para a luz, uma história luminosa que revela o que o homem – e, acima de tudo, a mulher – tem de melhor. É uma pulsão de vida. E se o filme evoca a memória de algo ou alguém, é dos Justos. Esses homens e mulheres que salvaram vidas, colocando as suas próprias vidas em risco. São eles que o filme celebra. Não é uma celebração das vítimas, nem uma condenação dos algozes. O que me parece, aliás, muito judeu: escolherás sempre a vida. Esta história encarna esse preceito de forma subtil, sem demonstrações, sem teses. Quando comecei a trabalhar na adaptação, tive uma tentação didáctica, queria falar sobre o que eram os campos, mas o Jean-Claude disse-me: “não temos de contar tudo isso, o nosso papel não é esse”. Abandonei muito rapidamente essa ideia e segui o instinto do Jean-Claude. Ele consegue sempre encontrar um sorriso, aqui e ali, apesar de tudo. É muito mais elegante, mais inteligente e cria um espaço muito mais valorizador e agradável para o espectador.
A escolha de fazer um filme de animação corresponde a essa vontade de aliviar, estilizar, criar uma distância entre um contexto muito pesado e a representação de um tema delicado?
Sim, a animação adapta-se bem à ideia de não ser excessivamente pesada. A animação é uma ultra ficção, enquanto a filmagem real procura fazer-nos acreditar que estamos a representar a realidade.
Num filme de animação nada é real e isso é visível e assumido. O próprio formato já impõe uma distância. Quanto a Auschwitz, a questão da ficção não é trivial, ela está no cerne do que está a ser contado. Os últimos sobreviventes estão a desaparecer e a ficção começará a assumir o papel de narrador desse período.
Hoje, um jovem de 20 anos está tão distante de Auschwitz quanto eu estava da legislação de 1905, quando tinha a idade dele: é uma coisa distante, faz parte da história antiga. Temos de aceitar isso, mesmo que nos custe engolir essa dessacralização. O facto é que vivemos um momento de transição na história da representação dos campos de extermínio. Os sobreviventes estão a desaparecer e a ficção apodera-se do tema o que, consequentemente, muda a representação deste evento no cinema. Enquanto ainda houve sobreviventes para testemunhar, estávamos, eu diria, na era de Lanzmann, ou seja, na época do documentário. Agora, estamos a entrar na era da ficção, e o formato da animação abraça completamente essa escolha, promovendo-a de forma muito poderosa. Além disso, a não-realidade da animação permite toda uma forma de estilização, possibilitando encontrar a distância certa em relação ao
objecto mostrado. Isso é extremamente valioso, e foi o que me permitiu abordar essa história, além de definir o que mostrar e como mostrá-lo.
Ou seja?
Ou seja, quando temos uma cena num campo e não falamos do horror do que ali aconteceu, estamos numa forma de mentira, de negação da História. E, inversamente, se mostramos exactamente aquilo que os testemunhos e os historiadores relatam, criamos uma cena a que é impossível assistir, que chega a ser obscena. Portanto, centra-se tudo na sugestão. E, para isso, a animação, o desenho – pelo menos para mim – foi a forma mais adequada para suceder ao documentário.