A Voz de Hind Rajab
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Categoria hospedeira: Programação
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in Ciclo do mês
DIA 19 | MAR | IPDJ | 21h30
A VOZ DE HIND RAJAB
Kaouther Ben Hania, Tunísia & França, 2025, 89', M/12
ficha técnica, sinopse e trailer: aqui
29 de janeiro de 2024. Voluntários do Crescente Vermelho recebem uma chamada de emergência. Uma menina de 6 anos está presa num carro sob fogo israelita em Gaza, a implorar por socorro. Enquanto tentam mantê-la na linha, fazem tudo o que podem para lhe enviar uma ambulância. O nome dela era Hind Rajab.
A VOZ DE HIND RAJAB, que conta a história real de uma criança Palestiniana, a pequena Hind Rajab.
Recordá-la é honrar a sua vida e apelar à nossa humanidade, dever de proteger as crianças, exigir acesso humanitário e recusar o silêncio.
A VOZ DE HIND RAJAB, realizado por Kaouther Ben Hania, está nomeado na categoria de Melhor Filme Internacional na 98.ª edição dos Óscares e na categoria de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa nos Prémios BAFTA de Cinema 2026. Venceu ainda o Leão de Prata – Grande Prémio do Júri, no Festival de Cinema de Veneza, onde recebeu a mais longa ovação de sempre na história do festival
a crítica
A VOZ DE HIND RAJAB não é apenas um testemunho dos crimes contra a humanidade que estão a ser cometidos em Gaza. É também a prova de que as constantes campanhas de difamação contra organizações de direitos humanos e agências de ajuda humanitária são ataques vis, promovidos por quem quer que isto continue a repetir-se, vezes sem conta. - Richard Whittaker, Austin Chronicle
A Voz de Hind Rajab não é propaganda. É testemunho. É reconstrução ética de um acontecimento documentado. E é também uma reflexão sobre o próprio acto de filmar o sofrimento.
(...) Talvez por isso o filme seja um doa mais importanyes do ano. - José Vieira Mendes, Revista Metropolis
Este filme essecial capta o estado horrível do mundo de hoje, mas ao mesmo tempo consegue mostrar que, se existe alguma esperança, ele reside na humanidade daqueles que estão mais privados da sua própria. Yorgos Lanthimos sobre A Voz de Hind Rajab.
Um filme que merece, exige, insiste em ser visto. - Empire Magazine
entrevista com a realizadora
A última chamada de Hind Rajab é uma das histórias mais angustiantes e emblemáticas que surgiram de Gaza, um momento que foi meticulosamente investigado por veículos de comunicação como o The Washington Post, a Sky News e a Forensic Architecture. Ela ressoou globalmente como uma tragédia íntima e uma acusação pública. Em que momento decidiu que essa história precisava se tornar um filme?
Primeiro, deparei-me com um pequeno áudio da Hind Rajab a pedir ajuda. A sua voz fraca rompendo o caos, pedindo simplesmente para não ser deixada sozinha. No momento em que ouvi, algo dentro de mim mudou. Senti uma onda avassaladora de impotência e tristeza: não intelectual, mas física. Como se o mundo tivesse inclinado ligeiramente do seu eixo.
A voz de Hind, naquele momento, tornou-se algo mais do que o apelo desesperado de uma criança.
Parecia a própria voz de Gaza, pedindo ajuda para o vazio, recebida com indiferença, recebida com silêncio. Era uma metáfora dolorosamente real: um grito por socorro que o mundo podia ouvir, mas ao qual ninguém parecia disposto ou capaz de responder. Entrei em contacto com a Sociedade do Crescente Vermelho Palestiniano para ouvir a gravação completa. Tinha mais de setenta minutos, setenta minutos de espera, de medo, de tentar aguentar. Foi uma das coisas mais difíceis que já ouvi.
Comecei então a falar com a mãe de Hind e com as pessoas que estavam do outro lado da linha, aquelas que tentaram, contra todas as probabilidades, salvá-la. Conversámos durante horas.
A partir das suas palavras e da presença assombrosa da própria voz de Hind, comecei a construir uma história. Uma história enraizada na verdade, sustentada pela memória e moldada pelas vozes daqueles que estavam lá.
Por que sentiu a necessidade de contar essa história através do cinema?
Mesmo com o acesso negado a Gaza, surgiram algumas reportagens jornalísticas de investigação, como mencionou. Mas acredito que o cinema oferece algo diferente. Ele não reporta, ele lembra. Ele não discute, ele faz você sentir.
O que me assombrava não era apenas a violência do que aconteceu, mas o silêncio que se seguiu. Isso não é algo que uma reportagem pode conter. É algo que apenas o cinema, na sua quietude e intimidade, pode tentar conter.
Então, recorri à única ferramenta que tenho (o cinema) não para explicar ou analisar, mas para preservar uma voz. Para resistir à amnésia. Para honrar um momento que o mundo nunca deve esquecer. Esta história também é sobre a nossa responsabilidade partilhada, sobre como os sistemas falham com as crianças de Gaza e como o silêncio do mundo faz parte da violência.
Este é um filme baseado numa perda real e devastadora: a morte de uma criança cuja voz foi ouvida em todo o mundo. Você falou sobre ouvir a gravação de áudio completa e entrar em contacto com as pessoas diretamente envolvidas. Mas abordar uma história tão sensível e pessoal inevitavelmente levanta questões de consentimento, confiança e representação. Como a família de Hind Rajab e, particularmente, a sua mãe, Wessam, reagiram ao seu desejo de contar essa trágica história através do cinema? E de que forma o apoio deles moldou o processo de criação?
Depois de ouvir a gravação completa da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, soube instantaneamente (no meu corpo, não apenas na minha mente) que tinha de fazer este filme. Mas também sabia uma coisa com absoluta clareza: se a mãe de Hind dissesse não, eu desistiria. Aquela conversa não era uma formalidade, era a base. Sem o consentimento dela, nada avançaria.
Rana, da Cruz Vermelha, foi quem me colocou em contacto com ela. Rana tinha estado ao telefone com Hind durante horas naquele dia, e ela e a mãe de Hind tinham desenvolvido uma ligação. Elas prometeram uma à outra que, quando esse horror acabasse, iriam juntas visitar o túmulo de Hind. Esse gesto simples disse-me muito sobre o tipo de carinho e confiança que já cercavam a memória de Hind.
A mãe de Hind é uma mulher extraordinária, graciosa, inteligente e profundamente gentil. Desde a primeira chamada, fui transparente. Eu disse-lhe: «Este filme só será feito se você quiser. A decisão é sua». Ela contou-me tudo sobre Hind, a sua personalidade, os seus sonhos, a maneira como ela ria. Senti que, ao partilhar tudo isso comigo, ela estava a tentar manter a sua filha viva, para garantir que a sua memória não desaparecesse ou se tornasse apenas mais uma notícia. A mãe de Hind conversou com a família sobre o filme, e todos deram o seu total apoio e consentimento. A sua voz, marcada por uma resiliência tranquila, amor sem limites e dor indescritível, permeia cada momento da construção deste filme.
Este filme não é só meu. Ele carrega o peso da confiança da mãe de Hind, a memória de uma criança cuja voz o mundo não pode ignorar e a coragem daqueles que tentaram alcançá-la: a equipa da Red Crescent que permaneceu na linha, o médico e o motorista da ambulância que foram mortos na tentativa. Ele contém a graça daqueles que perderam tudo, mas ainda assim encontraram força e generosidade para abrir seus corações e compartilhar comigo seu luto, sua dignidade e sua humanidade inabalável.
Embora a voz de Hind continue a ser o coração emocional do filme, a narrativa desenrola-se através dos olhos daqueles que tentaram salvá-la: a equipa da Red Crescent do outro lado da linha. Como é que os seus testemunhos moldaram o processo de escrita? E como é que lidou com o desafio criativo e ético de traduzir a experiência vivida por eles para a linguagem do cinema?
Quando comecei a falar com a verdadeira Rana, Omar, Nisreen e Mahdi, rapidamente percebi que nenhum deles tinha ouvido a gravação das suas próprias vozes daquele dia. Eu tinha acesso ao áudio completo através da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, mas eles não tinham ouvido desde que foi arquivado. Então, quando falaram comigo, não estavam a recontar o que disseram, mas sim o que sentiram.
Essa distinção era extremamente importante, tanto do ponto de vista ético como cinematográfico. Os seus testemunhos não eram transcrições factuais, mas sim relatos profundamente pessoais e subjetivos de medo, impotência, confusão e urgência moral. Isso deu-me uma camada única com que trabalhar: enquanto a gravação serve como espinha dorsal factual do filme, as suas memórias permitiram-me centrar as suas experiências interiores.
Para mim, o processo de escrita consistiu realmente em navegar entre estes dois mundos: o arquivístico e o emocional, o documentado e o vivido. O cinema deu-me a linguagem para abarcar ambos.
Um dos aspetos mais marcantes do filme é a presença crua e sem filtros dos atores. Há uma autenticidade palpável nas suas reações. Será porque ouviam a voz real de Hind durante as filmagens? E como é que isso moldou as suas atuações?
Sim, o que está a sentir é real. Os atores não estavam apenas a representar falas do guião. Eles estavam a reviver um momento real. Durante as filmagens, cada ator repetia, quase palavra por palavra, o que a sua contraparte da vida real tinha dito a Hind. E nos seus auriculares, ouviam a voz real de Hind, retirada da gravação original. Todos os atores são palestinianos (assim como a maioria dos figurantes) e este filme significou muito para eles. Não estavam apenas a interpretar uma história; estavam a transmitir algo que os tocava pessoalmente, historicamente e politicamente. Não era algo abstrato. Era real, próximo, imediato.
Era emocionalmente avassalador, não só para eles, mas para toda a equipa. Podia-se sentir uma espécie de silêncio coletivo no set, uma reverência. As fronteiras habituais entre atuar e testemunhar pareciam dissolver-se.
O seu trabalho há muito navega pela fronteira porosa entre o documentário e a ficção: uma tensão que encontrou um clímax marcante em Four Daughters, com The Voice of Hind Rajab, você retorna a esse espaço liminar, mas de uma forma ainda mais radical e íntima. Como você descreveria este filme em termos de género? É uma dramatização baseada em fatos reais ou um documentário disfarçado de narrativa?
Esta questão toca o cerne da minha prática. Nunca me senti totalmente confortável com definições fixas de género, especialmente quando se trata de histórias com profundo peso emocional e político. The Voice of Hind Rajab é, sim, um filme dramatizado. É roteirizado, construído e interpretado. Mas também está ancorado numa verdade inegável e dolorosa e, mais do que isso, é construído em torno de uma voz real, a da própria Hind, capturada nos momentos finais da sua vida.
Para The Voice of Hind Rajab, tive de encontrar uma forma cinematográfica em que a narração não fosse sobre invenção, mas sobre a transmissão de memória, de luto, de fracasso.Nesse sentido, não senti que estava a inventar nada. Senti que estava a receber algo (algo urgente, algo sagrado) e que o meu papel era moldar um espaço cinematográfico capaz de conter essa voz com dignidade. Portanto, não diria que este filme «esbate» as linhas entre os géneros. Diria que as intensifica, que alarga os limites do que a dramatização pode conter e do que o documentário pode proteger. Todas estas foram formas de resistir às convenções narrativas e tentar aproximar-me de um tipo diferente de verdade: não apenas o que aconteceu, mas o que se sentiu, o que significou.