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Onde Aterrar

Categoria hospedeira: Programação
in Ciclo do mês

DIA 4 | 21H30 | IPDJ

ONDE ATERRAR
Hal Hartley, EUA, 2025, 75’, M/12

ficha técnica, sinopse e trailer: aqui

nota de intenções

Queria fazer algo engraçado e profundo, simultaneamente fantástico e realista. Nos anos em que tive de fazer o meu próprio testamento, estava também, com os meus irmãos e irmã, a cuidar do nosso pai nos seus últimos anos. Estava igualmente curioso acerca de mudar de vocação tarde na vida. Isso era sequer permitido? Por vezes, alguns fãs, certos associados e grande parte da minha família insistiam que não podia! ‘Você tem de continuar a fazer filmes!’, esse tipo de coisa. Talvez seja saudável, talvez não, mas o meu primeiro impulso foi fazer um filme sobre isso.

notas críticas

Onde Aterrar não é uma repetição nem uma reedição. Sente-se actual sem ser passageiro, familiar mas não gasto. Há algo de reconfortante num artista tão coerente nas suas preferências e que, ainda assim, demonstra crescimento ao longo do tempo. - Slant Magazine (Seth Katz) ★★★★

…Hal Hartley no seu auge, caloroso e optimista, infernalmente divertido e cheio de vitalidade. -  ABC Radio (Paul F. Verhoeven)

Uma verdadeira maravilha de filme, encanta-nos tanto com o vento nas árvores como com uma pausa momentânea numa conversa, esperando pacientemente que descubramos o seu poder apaziguante. - The Film Stage (Glenn Heath Jr.)

Numa era de tecnologia que nos dilacera o cérebro e de pensamento colectivo moldado por algoritmos, Hartley destaca-se, em contraste cada vez mais nítido, como uma força autoral discretamente intransigente. - VICE Magazine (Kevin Khara)


Entrevista: Hal Hartley sobre Onde Aterrar e fazer filmes à sua maneira – Slant Magazine (Brad Hanford)

Está em Nova Iorque neste momento?
Estou, sim. Estou em minha casa. Na verdade, estou mesmo na divisão onde decorre a maior parte da história.

Estava a pensar se seria a sua casa! Portanto, quando o Joe Fulton está a elaborar o seu testamento e a listar todos os seus bens, esses eram, de facto, os seus bens.
Pois, sim. Por volta de 2015, 2016, tive de fazer isso. Tal como ele diz na história, os meus advogados andavam há muito tempo a dizer-me para o fazer. Principalmente porque tenho estes filmes que me pertencem. E isso pode ser complicado se eu for atropelado por um autocarro, o que significaria que alguém teria de descobrir o que fazer com aquilo. Portanto, finalmente fiz isso, mas achei toda a reunião com os advogados tão divertida. Era tudo tão simples e quase parecia parvo. Disseram: “Só tens de ir para casa, fazer uma lista de tudo o que possuis e de quem gostarias que ficasse com isso, e isso inclui os filmes e tudo o mais”. Por isso, acho que ainda quando ia no metro para casa, dessa reunião em 2015 ou assim, já estava a imaginar uma história.

Há esta ideia sobre acumular coisas na história, com a personagem Elizabeth, interpretada por Kathleen Chalfant, a perguntar se a produção artística de Joe não é apenas outra forma de acumulação.
Na escrita, acabei por me concentrar numa situação inicialmente engraçada, simples e materialista para o Joe, que, ao longo do dia, se transforma realmente numa meditação sobre o que é a vida, e que a morte tem de fazer parte disso. Portanto, passa do quotidiano para o filosófico.

Falando em materialismo, financiou este filme através do Kickstarter, tal como fez com a sua longa-metragem anterior, Ned Rifle. Sabia desde o início que queria fazer isto através do Kickstarter, ou procurou outros financiamentos?
Na verdade, não creio que alguma vez tenha escrito um argumento com tão pouca intenção de o produzir na altura. Estava a escrever um romance, um romance curto chamado Our Man, que espero que seja publicado no início do próximo ano, e que transformei em páginas de argumento. Estava a trabalhar no livro, e deixei-o de lado porque fiz Ned Rifle. E depois de Ned Rifle, voltei e regressei ao livro, e pensei: “Bem, sabe, sinto que algumas destas cenas podem funcionar muito bem como cenas”.
O argumento acabou por ser bastante diferente do livro. E quando o terminei e o comecei a entregar a amigos, as pessoas reagiram de forma muito forte, incluindo o Bill Sage e o Bob Burke. Isso encorajou-me, e então decidi fazer o Kickstarter, porque tínhamos feito o Kickstarter para Ned Rifle em 2013. E isso foi extremamente difícil porque nunca tinha feito tal coisa antes. Mas acabámos por conseguir, e saber isso tornou mais fácil para mim decidir fazer outro Kickstarter para um novo filme.

Imagino que haja muita liberdade em ter o seu próprio financiamento, mas também deve haver um conjunto totalmente diferente de desafios que vêm com isso.
Sim, é muita coisa. Quer dizer, é um papel diferente daquele que assumimos quando estamos a angariar fundos e, sim, há muitos desafios. São pessoas reais com quem lidamos – não são grandes empresas ou algo do género. Temos de ser muito diplomáticos. Algumas dessas pessoas estão a dar-nos $10,000, $5,000, e queremos simplesmente tratá-las com respeito. Mas isso estende-se até às pessoas que estão apenas a dar $25 e querem um livro ou algo assim. Acho que o que tornou o primeiro muito difícil para mim foi o facto de ser realmente bastante público. E eu não sou muito bom nisso. Não sou uma pessoa muito pública. Portanto, foi um esforço. Tive de, por assim dizer, ser público durante aqueles 30 dias.

Joe Fulton é também o nome da personagem principal de Meanwhile (2011), mas é uma personagem diferente interpretada por um actor diferente. Personagens recorrentes não são novidade nos seus filmes, mas existe alguma coisa na ideia dessa personagem que quisesse explorar mais a fundo? Ou é apenas um nome?
Quer dizer, algures pelo caminho disse: “Talvez deva ter sempre uma personagem chamada Joe Fulton que fosse interpretada por alguém diferente.” Mas tem sido um nome de brincadeira para mim durante anos. Lembro-me de ler numa revista ou algo assim como as estrelas pornográficas arranjam o seu nome artístico, combinando o nome do meio com o nome da rua onde cresceram. Acho que li isso em voz alta no escritório quando alguns de nós estávamos por lá. E toda a gente começou a inventar o seu nome de estrela pornográfica, e foi hilariante. Portanto, o meu era Joe Fulton. O meu nome do meio é Joseph, e cresci na South Fulton Avenue. Mas também soa real. Soa a um nome verdadeiro.
Meanwhile foi uma espécie de projecto quase autónomo. Era uma coisa em si mesma. Mesmo enquanto o estava a filmar, ia tomando notas para fazer uma série de filmes protagonizados pelo Joe Fulton, diferentes tipos de aventuras. Quase como, acho eu, se estivesse a pensar no formato de televisão episódica. E demorei algum tempo a aperceber-me disso. E até cheguei a apresentar Meanwhile como um projecto de televisão episódica durante algum tempo. Não avançou, mas quando chegou a altura de fazer este filme, pareceu simplesmente certo voltar a usar o Joe.

Ao fazê-lo realizador de cinema neste caso, está de certa forma a convidar leituras autobiográficas do filme. Uma personagem chama-o de “estadista veterano da comédia romântica americana”, o que não é necessariamente como eu o descreveria, mas parece haver algum ponto de contacto.
Sim, não queria chamá-lo de realizador independente.

Ele parece, de facto, um pouco mais orientado para o lado comercial. Mas teve alguma hesitação em fazer algo que soe mais autobiográfico?
Não, não tive. Senti que estava tudo bem, porque não é autobiográfico, mas é pessoal. Posso ter retirado detalhes da minha experiência, mas eram detalhes que, de certo modo, são muito gerais. Ou, se não fossem muito gerais, tentei torná-los mais gerais. Como o sítio onde vivo, a ex-mulher que é uma grande amiga. E tenho sobrinhas e sobrinhos. E tenho uma amiga mais velha como a Elizabeth. Portanto, quis trazer tudo isso e falar de coisas que realmente me interessam. Acho que as coisas de que as personagens falam no filme, todas elas, estão muito mais próximas da minha experiência do que os próprios detalhes da vida do Joe. 

Certo. Porque esta personagem está a fazer um balanço da sua vida e a perguntar-se se pode ser mais útil para o mundo ou simplesmente mais realizado pessoalmente fazendo outra coisa. E você é realizador, mas também escritor e músico e, claro, já passou muito tempo desde o seu último filme. Também tem encontrado significado fora das suas vias habituais dessa forma?
Bem, certamente fora do cinema. Agora, passo muito mais tempo a escrever prosa. Mas há aquele episódio no cemitério, no livro, que transformei numa cena muito maior. O livro é sobre um homem de 53 anos ao longo de três dias enquanto ele pondera fazer aquilo que eu chamaria de mudança de carreira. Ele gostaria simplesmente de fazer alguma coisa. Nesse caso, não tem a certeza do que é, mas provavelmente é algum tipo de manufactura ou algo desse género.
Mas nisso – e isto vem directamente da minha vida, quero dizer, directamente do meu caderno –, eu passei por esse cemitério, onde filmámos efectivamente um dia, a caminho do metro, e vi um homem um pouco mais velho do que eu simplesmente a fazer o seu trabalho como jardineiro. E parei e observei a forma como ele trabalhava com as suas ferramentas, e como havia ali uma dignidade. Uma dignidade simples no seu trabalho, e pensei, depois de uma vida na indústria do cinema, “Uau. Gostaria imenso de ter uma vida assim tão clara, em que os imperativos fossem assim tão claros.”
Agora passo todos os dias a lidar, de uma forma ou de outra, com possíveis financiadores ou distribuidores, constantemente em negociações e coisas desse género. E com o passar do tempo, depois de fazer Ned Rifle, pensei: “Sim, não vou fazer mais isto”, ou seja, cinema independente em que eu arranjo o dinheiro, produzo o filme e até o distribuo. Pensei que, se alguém me pagasse para o fazer, isso seria óptimo. Faria isso desde que fosse nos meus termos e não tivesse de ceder demasiado.
E depois arranjei trabalho como realizador contratado, para a Amazon, a realizar vários episódios de uma série chamada Red Oaks. E isso foi muito bom. Foi o trabalho mais  bem pago que tive. Pude fazer aquilo que sei fazer. Não era o chefe. Isso foi fixe.

Isso é interessante, porque uma das coisas que adoro nos seus filmes é que muitas vezes tem personagens com vidas intelectuais ou criativas muito ricas, mas que fazem trabalhos bastante banais. Em Henry Fool (1997) tem o Simon Grim, que é colector do lixo e poeta, ou o Robert Burke, que é mecânico em The Unbelievable Truth (1989). E neste filme tem um realizador que pondera tornar-se jardineiro de cemitério, e um porteiro de edifício que quer ser vereador socialista.
Acho que ninguém ficou mais surpreendido do que eu por conseguir, eventualmente, ganhar a vida a fazer aquilo que amava. Sempre assumi, desde miúdo, que fazemos o que temos de fazer para pagar as contas. E aquilo que amamos – bem, foi para isso que inventaram o fim-de-semana. Mas, mesmo em adolescente, estava rodeado de pessoas que me diziam que eu estava doido por pensar assim, porque eram muito encorajadoras. E a minha amiga, de quem a Elizabeth retira o nome, é a mãe de uma amiga minha. E ela foi muito importante para mim e dizia-me: “Tens de parar de pensar assim porque tens talento, és focado e és um bom miúdo.” Mas era fácil esquecer esse tipo de incentivo.
Por isso, mesmo quando vim para Nova Iorque e comecei a fazer filmes, eu não acreditava muito que isso se tornaria realmente uma carreira. Mas tornou-se. Portanto, sou um bocado sensível a esse tipo de personagens. E preciso sempre, enquanto escritor, de saber o que uma personagem faz para viver. Mesmo coisas simples. Se ele ou ela gosta do trabalho. Isso diz-me muito sobre quem será. Se se manterão nesse trabalho ou não. Gosto de começar pela contradição. Este é o interior, aquele é o exterior. Este é o mundo em que vivem, isto é o que pensam dele. E assumo sempre que as pessoas, como o porteiro Oliver neste filme, têm uma vida, uma vida intelectual própria. 

A mortalidade está no centro deste filme, mas não de forma mórbida. Trata-se de pessoas a assumirem que um homem está a morrer quando não está. Isso surgiu da conversa sobre fazer o testamento, ou o tema já lhe ocupava o pensamento há mais tempo?
Claro, ter de fazer um testamento, sim, isso traria essas coisas ao de cima. Mas nesses anos eu também estava a cuidar do meu pai, que faleceu em 2015. Passava metade de cada semana em Long Island com o meu irmão e a minha irmã. Tivemos de o acompanhar até ao fim. Ele morreu aos 90. Mas diria que já pensava nisso há muitos, muitos anos, filosoficamente, mas talvez não em termos materiais concretos no dia-a-dia.
Mas também, quer se esteja a fazer o testamento ou não, à medida que se envelhece, pensa-se mais nesse tipo de coisas. Está-se mais atento ao envelhecimento, e damos por nós a tomar decisões sobre certas coisas muito mais facilmente do que quando tínhamos 30 anos. E há muitas mais opções, como se tudo fosse possível. 

O Joe Fulton parece certamente renovado no final do filme.
Sim. E são sempre outras pessoas. De certo modo, é o projecto de outra pessoa, não é? Ele interessa-se pela sobrinha, pela criatividade dela e pela sua vida intelectual, e os seus amigos e família acabam por puxá-lo de volta para algo em que ele é realmente bom. Quem sabe? Ele pode ser mesmo péssimo como jardineiro de cemitério. Mas é bastante bom a realizar  comédias românticas. 

Tenho de perguntar sobre a cena da entrevista entre o Joe e a mulher que está a escrever o livro sobre o seu trabalho, porque me revi naquela cena enquanto me preparava para isto. Ela tem uma interpretação muito particular do uso de ironia por parte do Joe, e sei que já disse no passado que não gosta que usem a palavra “deadpan” para descrever o seu diálogo. Essa cena veio de experiências reais?
Acho que imaginei aqui uma situação bastante extrema. Mas a questão da ironia era importante. Quis tirar isso do caminho. Tenho certas ideias sobre como a ironia funciona e porque a utilizo. Portanto, de uma forma meio enviesada, estou a pô-la a dizer-lhe qual é a ironia dele e ele fica a saber disso como se fosse novidade.
“Deadpan” é simplesmente demasiado amplo e demasiado fácil. Prefiro “falta de uma interpretação óbvia.” Acho que muitas vezes as pessoas confundem ironia com cinismo, coisa com a qual nunca me envolvi. A ironia é interessante porque evidencia a contradição, e isso é o que me interessa. Contradições numa pessoa, numa personagem, no seu carácter ou na situação.

Ajuda-nos a pensar. É uma forma de convidar o espectador a ver diferentes aspectos da situação. Fico contente por ter mencionado o cinismo, porque este parece um filme optimista apesar de tocar em temas sombrios. O Joe sente-se artisticamente renovado no final, o que suponho que poderá ser uma forma invertida de perguntar se partilha esse sentimento e o que poderá vir a seguir da sua parte. Está mais motivado para fazer filmes novamente?
Na verdade, não. Quer dizer, como disse antes, não quero voltar a fazê-lo desta maneira. Mas também disse isso depois de Ned Rifle. Acho que este foi realmente bem feito, tal como Ned Rifle, mas se o for fazer novamente, quero que seja… quero ter mais dinheiro. E estar um pouco mais seguro, sabe? Este tipo de coisa – ganho a minha vida a fazer isto, mas agora tenho de esperar. O filme tem de sair, e posso ganhar a vida com ele mais tarde, percebe? Mas não me importaria de ser pago. Não quero comprometer as minhas intenções ou a minha forma de trabalhar para corresponder a alguma ideia corporativa de excelência. Agora, acho que há, citando Godard, “uma continuidade clara de todas as formas de expressão.” Portanto, para mim, não é assim uma grande ruptura o facto de estar a escrever romances e contos. Não me parece uma separação completa do cinema.

 

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