Tito e os Pássaros

17 NOV | IPDJ | 11h00
TITO E OS PÁSSAROS, Gabriel Bitar, André Catoto e Gustavo Steinberg, Brasill, 2018, 73', M/16

trailer, sinopse e ficha técnica: aqui

crítica
O medo no Brasil em "Tito e os Pássaros"
Venceu o Prémio do Público no Festival Monstra e estreia agora em sala. A animação brasileira Tito e os Pássaros está aí para explicar a cultura do medo às crianças - e também aos adultos - nestes tempos complexos.
Não é todos os dias que nos chega um filme de animação brasileira. Antes de Tito e os Pássaros, a última produção do género a estrear entre nós, o belíssimo O Menino e o Mundo, de Alê Abreu (que esteve nomeado para o Óscar em 2016), já era um sintoma muito pronunciado da originalidade e gosto artesanal que fervilha nesse meio criativo. Agora, com este mais recente trabalho conjunto dos realizadores Gabriel Bitar, André Catoto e Gustavo Steinberg, confirma-se que há, de facto, uma vontade de fazer diferente dos grandes estúdios de animação (sobretudo do modelo da indústria americana), sem contudo ignorar a lógica da escala narrativa.
Tito e os Pássaros conta a história de uma aparentemente inexplicável epidemia causada pelo medo, que tolhe as pessoas até estas tomarem a forma de pedras. Diante do pânico geral, que se reflete também no interior do seu lar, um menino chamado Tito, e mais dois amigos, tentam "salvar o mundo" procurando o antídoto para tal flagelo. E o segredo, acreditam eles, está numa máquina inventada pelo pai de Tito que deverá decifrar a linguagem ancestral dos pássaros. Porque, como ele explicou ao filho, estes sempre tiveram uma discreta função primordial na sociedade, operando ao longo dos tempos nos modos de comunicação humana.
Se no papel esta ideia pode parecer rebuscada para as crianças, diga-se desde já que a primeira qualidade do filme é conseguir traduzir a metáfora numa aventura que, lidando com os clichés da ação dos pequenos heróis contra o vilão, combina, sem atrito, mensagem com entretenimento. E se a noção da cultura do medo é qualquer coisa intemporal (quando começaram a conceber o filme os realizadores ainda não tinham Jair Bolsonaro no seu horizonte), a verdade é que todas as leituras possíveis convergem para o que está a acontecer à nossa volta, não só no Brasil como em qualquer parte do globo. Vem à cabeça a imagem de uma Europa onde grassam sentimentos nacionalistas (como aquele por trás do Brexit) e a repulsa pelos refugiados, ou dos Estados Unidos, com Donald Trump a bater-se pela construção de um muro na fonteira com o México... No filme, nem a esfera mediática escapa ao comentário do seu próprio papel na propagação da ansiedade.
Passada a simples e valiosa mensagem - que nas crianças apela, acima de tudo, a um sentido crítico sobre o mundo -, há igualmente o prazer visual. Tito e os Pássaros é um admirável trabalho de cores e texturas, entre o quente e o frio, que nos remete para atmosferas distintas conforme o gesto vigoroso da pincelada. Aqui a inspiração é claramente expressionista, com toda a estética das imagens animadas a valorizar o imaginário dessa corrente artística. Apetece dizer que é o tipo de centelha criativa que já pouco resiste num panorama mundial dominado pela sofisticação tecnológica das grandes máquinas do cinema de animação, e que se destaca por uma certa linguagem sensível à exigência do olhar. Importa não esquecer que o desenho animado, dentro da sua evolução técnica, ainda é isso mesmo: um desenho, o traço. Tito e os Pássaros recorda-nos também desse princípio.
*** Bom
Inês N. Lourenço, dn