Wanda

Ciclo do mês - Junho/Julho 2020

30 JUL | Esplanada IPDJ | 22H00
Wanda, Barbara Loden, EUA, 1970, 102’, M/16 

sinopse, ficha técnica e trailer: aqui

declarações

O seu trabalho como actriz fazia com que nenhum guião fosse definitivo. Para ela existia sempre um elemento de improvisation (digo-o em inglês por ser mais exacto). Havia sempre improvisation no que ela fazia, era sempre uma surpresa. O único a ser também exactamente assim foi Brando, quando era novo. Ele nunca sabia exactamente o que ia dizer, por isso tudo saía verdadeiro da sua boca. (...)
Ela representa no filme uma personagem que temos na América e que existe, suponho eu, em França e em todo o lado, a que chamamos floating (vagabundo). Uma mulher que flutua à superfície da sociedade, ao sabor da corrente. Mas, na história deste filme, o homem que ela encontra precisa dela. Durante alguns dias ela tem uma direcção e, no fim, quando ele morre, ela regressa à sua errância. Ela compreendia a personagem muito bem, porque quando era nova, era um pouco assim. Disse-me uma vez uma coisa muito triste: "Preciso de um homem para me defender". Acho que a maioria das mulheres sabe o que isto é, mas não tem honestidade suficiente para o admitir. E ela dizia-o com tristeza.
Elia Kazan

WANDA é uma obra-prima. Se Barbara Loden nos emociona é porque é um anjo que nos conta a sua balada solitária no país dos homens. É a sua "Noite do Caçador", uma noite que nos ilumina.
Foi uma surpresa para mim - descobri um filme extraordinário, extraordinariamente comovente, e sem cair em lugares-comuns. Podemos dizer verdadeiramente que é moderno, ou actual - tanto podia ter sido feito hoje, como há 30 anos. Não é nada datado.
Isabelle Huppert

críticas

É um filme chamado "Wanda". A história de uma mulher que precisa de um homem para existir. É a única obra de uma mulher chamada Barbara Loden. Esquecida das listas do cinema da década de 70, está aí para assombrar os espectadores de hoje. Murmura-nos ao ouvido: eu existi.
É como se o vulto caminhasse através das décadas, para chegar até nós, espectadores de hoje, vindo dos anos 70: figura branca entre dunas negras, um fantasma numa mina de carvão.
Vai desaparecer, engolido pelos montes, ou resistirá às dunas?
É um dos primeiros planos de um filme chamado "Wanda" (1970), realizado por Barbara Loden: a câmara afastou-se o mais que pôde, até tornar o ser humano apenas um ponto branco no ecrã cinzento, para assim apresentar a personagem - uma mulher, Wanda, origem proletária, Pensilvânia, EUA. Ao ver hoje o filme, que nunca constou da iconografia da "década mais liberal do cinema americano", que ficou esquecido - que (como dizem alguns arqueólogos do tempo) foi "apagado" da história oficial - o plano do vulto errante parece estar ali para nos assombrar (e é assombroso): Wanda vem caminhando, e "Wanda" aproxima-se e uma realizadora, Barbara Loden (1932-1980), também intérprete, segreda-nos, como as criaturas dos sonhos que querem passar para o lado de cá: eu existi.
Com um filme sobre uma mulher sem existência.
Foi numa página de jornal que Barbara Loden, ex-modelo, actriz (frustrada), casada com um "monstro" da Hollywood clássica, Elia Kazan, encontrou aquela que seria a sua única obra cinematográfica. Foi no relato do julgamento de uma mulher por cumplicidade no assalto a um banco, condenada a 20 anos de prisão, que, depois de lida a sentença, agradeceu ao juiz, foi nesse agradecimento que Barbara encontrou Wanda. (Foi aí que Barbara começou a encontrar-se como artista, demanda que é duvidoso que ela tenha cumprido - morreu precocemente, vítima de cancro, e numa altura em que o filme, apesar de elogios de jornais nova-iorquinos e de um prémio no Festival de Veneza no ano da estreia, fora esquecido).
à boleia da existência. Wanda (Barbara Loden) é uma penetra da existência. Rodeada de minas de carvão, abandona os filhos, concorda que o marido peça o divórcio porque ela não é boa mulher nem boa mãe ("eles estão melhor com ele"), e fica à espera de um homem que passe para ela apanhar boleia de saída.
Um dia, entra numa "drugstore" e encontra Mr. Dennis (Michael Higgins) - vai sempre chamá-lo "Mr. Dennis". Mr. Dennis é um assaltante na América profunda, também ele à procura de uma saída.
Wanda entra no "drugstore" - não pede licença para entrar - e surpreende Mr. Dennis no meio de um roubo. Não é claro que Wanda tenha percebido a cena. Mas a sua passividade e sonambulismo são movidos a desespero, o que faz com que todos os gestos, mesmo os de alheamento, sejam determinados: sobrevivência.
Wanda precisa de um homem para sentir que existe. Wanda é das personagens mais insondáveis e comoventes do cinema americano: passiva e simultaneamente vampira, vítima trágica e sobrevivente à procura da oportunidade, enigmática mas a emitir sinais para que reparem nela. (Correcção: Wanda e Mr. Dennis são das mais comoventes personagens do cinema americano: esquecidos da América que esbracejam já pouco convictos de que há um momento para eles ao dobrar da esquina de um banco).
Podia pensar-se que esta alienação ia ao gosto do cinema americano da altura, influenciado pela contra-cultura, favorecendo as margens e a experiência alternativa. É verdade que a "nova Hollywood", de finais dos anos 60, princípios dos anos 70, estava a "glamourizar" o "outsider", a fazer dele um ícone pop. A criar um contra-mito - não é "Bonnie & Clyde", de Arthur Penn (1967), com Warren Beatty e Faye Dunaway, o símbolo dessa era?
Mas "Wanda", (também) uma história de um casal de assaltantes, era o oposto disso (o filme de Loden estreou-se e houve logo comparações com a obra de Penn; a realizadora é que deixou claro: "É um filme de que não gosto. Fiquei mesmo chocada pela idealização das coisas. Podiam ter feito a mesma coisa mas de forma realista, com as mortes mas sem aquelas belas cores, aquelas pessoas belas... Pessoas assim tão belas não se tornam uns bárbaros... não têm necessidade disso. Têm outros meios para se safar. Bonnie e Clyde não eram belos na realidade. E, em todo o caso, o meu argumento foi escrito antes de 'Bonnie & Clyde'").
Não há horizonte mítico ao fundo do "road movie". Não há heróis nem heroínas - que eventualmente se cumpram despedaçados por balas. A glória não é para Wanda e Mr. Dennis. Há um momento, o que precede o assalto, em que ela troca os "bigoudis" no cabelo, algo que dá o ar de eterno e incompleto "work in progress" à identidade, pelo mais acabado chapéu de penas. É Mr. Dennis que trata da nova apresentação. Em favor de um disfarce de respeitabilidade para facilitar a manobra assaltante. Sim, mas é também a prova de um guarda-roupa mítico - o casal americano modelo - que nunca lhes servirá.
Como "Wanda", afinal, não encaixou no modelo dos virtuosos "movie brats" que nesses anos estavam a ocupar Hollywood (e que em breve ocupariam as bilheteiras), porque era "imperfeito", cru (mas de uma economia narrativa determinada), filmado em 16 mm, com personagens opacas - o filme foi rodado em 10 semanas, com uma equipa de quatro pessoas composta por Loden, Nick Proferes, director de fotografia e colaborador da realizadora, um técnico de luz e de som e um assistente; Loden e Michael Higgins eram os únicos actores profissionais, e o todo interagia, como num documentário, com as pessoas e com os locais (foi assim que tudo se passou, por exemplo, na sequência em que Wanda e Mr. Higgins encontram uma família que brinca com um avião telecomandado).
Como "Wanda" não encontrava caução num discurso de libertação feminina, o que o pôs fora dos textos sobre o "the new women's cinema". A narrativa não se organizada à volta de uma auto-descoberta, a independência também não estava ao virar da esquina. Não sobra uma personagem "positiva": depois do assalto, que corre mal para Mr. Dennis, Wanda continua a vogar, agora diluída no meio da multidão de uma cidade. À espera, como um "desperado" sonâmbulo, de outro homem, de outra boleia.
o milagre. "Wanda" ficou um ponto branco e isolado, em vias de desaparecer, na paisagem americana. Depois da morte de Loden, começaram a evidenciar-se admiradores - sobretudo europeus. Um deles foi a escritora Marguerite Duras, que, numa conversa com Kazan em 1980, publicada na revista Cahiers du Cinéma, anunciava que queria distribuir o filme, para assim garantir - "com todas as minhas forças" - que "Wanda" tivesse existência junto do público (acabaria por ser a actriz Isabelle Huppert, em 2003, a comprar os direitos do filme que esta semana chega às salas portuguesas).
Na conversa com Kazan, Duras dizia (intuição lancinante) que havia um "milagre" em "Wanda": a "coincidência imediata e definitiva entre Barbara Loden e Wanda". Kazan entendeu isso como uma coincidência de "jogo" entre a actriz e a personagem, mas Duras precisou: "O milagre para mim não tem a ver com o jogo. O milagre é que ela [Loden] parece ser mais ela própria no filme, parece-me - por que eu não a conheci -, do que na vida real. Ela é mais verdadeira no filme do que na vida, e isso é milagroso".
Sobre as coincidências entre a personagem e ela própria, Loden falou nas poucas entrevistas que deu [ver texto nestas páginas]: a origem proletária; a busca de uma identidade através de figuras masculinas - Mr. Dennis usa roupas que pertenceram a Elia Kazan, na altura casado com Loden; Mr. Dennis "dirige" Wanda como um realizador dirige uma actriz (Kazan dirigiu aquela que seria sua mulher em alguns filmes, experiências que não foram gratificantes para ela), etc.
Mas em vez de uma narrativa autobiográfica do género "o que fui, de onde vim - e como ultrapassei", "Wanda" é uma experiência pessoal de confronto sem bálsamo, é uma ferida (a sua) que Barbara Loden mantém aberta com uma rodagem, reafirmando, confrontando, de forma cruel, uma verdade que era a sua. Hoje, mais de vinte anos depois, isso é um extraordinário murmúrio: eu existi.
[...]
Vasco Câmara, Público

wanda

Uma mulher loira acorda a custo numa casa miserável. Vestida de branco, rolos no cabelo, atravessa a paisagem, pequeno ponto claro na terra negra de carvão, astronauta perdido no meio das cinzas lunares. Onde vai Wanda tão perdida? Divorciar-se sem protestar, abandonar sem combate os filhos ao pai, antes de partir numa deambulação pela América, que a realizadora pinta sem qualquer traço de folclore, oferecendo a imagem de um país sem alma. Wanda encontra de seguida "Mr.Dennis" (Michael Higgins, formidável, uma espécie de Groucho Marx sem ser cómico), um ladrão que transpira angústia, cerveja, mediocridade e que se recusa a exprimir o menor sentimento. Mr.Dennis vai pegar em Wanda, o que não é muito difícil, e voltar a dar-lhe um rosto um pouco mais humano, o que não lhe pode fazer mal. Porque Wanda não tem força, é uma estrangeira no mundo, um Bartleby no feminino. Ela acha que está morta, é uma nulidade, estúpida. Estes anti-heróis, Bonnie e Clyde antonianos, Zampano e Gelsomina do Oeste, preparam um golpe. Cobarde, é claro. WANDA é um grito de desespero mudo, um auto-retrato bem mais violento por ser contido, um retrato de uma mulher angustiada sem concessões, uma descrição dos excluídos do capitalismo. Uma obra-prima intemporal.
Jean-Baptiste Morain, Les Inrockuptibles