PJ Harvey: A Dog Called Money

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16 JUL | Esplanada IPDJ | 22H00
PJ Harvey: a Dog Called Money, Seamus Murphy, 2019, Irlanda/ Reino Unido, 94’, M/12

sinopse, ficha técnica e trailer: aqui

crítica

Viajando no interior da música
Mais do que um tradicional "making of" de um álbum da inglesa PJ Harvey, "A Dog Called Money" apresenta-se como um espaço de cumplicidade da cantora com o fotógrafo Seamus Murphy — o resultado é um belo e anti-convencional documentário.
O título do filme "PJ Harvey: A Dog Called Money" provém de uma canção de PJ Harvey gravada durante as sessões do álbum "The Hope Six Demolition Project"(2016). E faz sentido que assim seja. Afinal de contas, acompanhamos a cantora inglesa, não apenas durante essas sessões, mas também ao longo das viagens que fez com o fotógrafo Seamnus Murphy, também realizador do filme, recolhendo temas e inspirações para o seu trabalho.
Dir-se-ia um tradicional "making of", expondo a evolução de um labor específico que, em última instância, se cristaliza no alinhamento final do álbum. O certo é que estamos longe da lógica corrente, predominantemente promocional, desse modelo documental. Em boa verdade, este é um filme sobre as relações da música com as imagens do mundo à nossa volta.
Na prática, nem sequer se pode considerar que Murphy esteja a "acompanhar" PJ Harvey na sua demanda musical. Isto porque a motivação primeira é o próprio trabalho do fotógrafo, visitando várias regiões de Afeganistão e Kosovo, além da zona de Washington em que está a ser aplicado um plano de construção de casas, procurando recuperar bairros afectados por fortes índices de criminalidade (o título do álbum provém, aliás, da designação oficial desse plano: HOPE VI).
As sessões de gravação do álbum acontecem num cenário muito especial: uma espécie de estúdio, fechado mas com janelas, aberto a visitantes que podem observar o labor dos músicos sem que estes vejam tão singular plateia. Pode dizer-se que "PJ Harvey: A Dog Called Money" é, afinal, um filme que nos ajuda a compreender e sentir as canções para além da sua pertença a um objecto a que chamamos "álbum" — este é um filme, de uma só vez subtil e sedutor, sobre a cumplicidade orgânica da música com as pessoas e as paisagens do mundo à sua/nossa volta...
... e os telediscos de "The Hope Six Demolition Project" foram, em grande parte, fabricados a partir de imagens que integram o filme de Seamus Murphy.
João Lopes, rtp.pt/cinemax

pj harvey

O documentário “PJ Harvey: A Dog Called Money” é um caderno de notas visual
O mais recente disco de PJ Harvey, “The Hope Six Demolition Project”, e as viagens que o inspiraram deram um documentário. [...]
PJ Harvey quis construir um disco com estilhaços do mundo e fez questão de recolhê-los in loco. O filme do fotógrafo irlandês Seamus Murphy testemunha esse ousado processo. Não se trata, pois, de um documentário biográfico da cantora inglesa, antes um olhar completo sobre a construção do seu álbum The Hope Six Demolition Project (2016), desde a pesquisa até ao processo de gravação. Aliás, a estrutura agilmente montada dá-nos precisamente esse contraponto: a primeira inspiração tirada das viagens e a canção resultante em estúdio.
Para o efeito, a música e o fotógrafo viajaram por terras distantes e diversas, recolhendo elementos para o disco, passando por sítios bem marcantes, como o Afeganistão, o Paquistão, o Kosovo ou, em contraponto, as comunidades negras e evangélicas dos arredores de Washington. Aliás, nota-se um especial interesse pela religião, enquanto fonte melódica e espiritual, independentemente do contexto.
Acresce, ainda, que o álbum, ousado no método, também teve a mesma ousadia no conceito de produção. Construiu-se de propósito um estúdio, em Inglaterra, com uma parede de vidro que permitiu que um público selecionado fosse assistindo às gravações (sem que os músicos os pudessem ver nem ouvir). Tudo isto são elementos cénicos que alimentam o filme, que curiosamente acaba por ser a primeira experiência de realização de Seamus Murphy, reputado fotógrafo (conhecido, sobretudo, pelas suas séries feitas no Afeganistão).
Manuel Halpern, visão